sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ser ou não-ser


Talvez uma das coisas mais importantes que aprendi com Osho foi a compreensão de que nossa mente é ardilosa e que nunca quer perder o controle.
Para isso ela sempre dá um jeitinho. Ora a vemos apresentando justificativas, ora levantando bandeiras, ou abraçando “causas nobres”, manifestando suas opiniões, ou não abrindo mão de certos princípios e convicções.
E nós ficamos “em cima do muro” lendo os textos esclarecedores do Osho e dizendo para nós mesmos: “Ah! É isso mesmo! Como essa mente é esperta!”

Tendemos a nos separar da mente ou do ego. E nos esquecemos de que, no estágio em que estamos, de não-iluminados, não sabemos ao certo quem somos. Assim, melhor do que dizer que nossa mente é ardilosa ou que o “meu ego” é isso ou aquilo, eu deveria dizer que eu sou ardiloso, que eu fico me justificando diante de cada ato e situação, que vivo levantando bandeiras, que estou sempre abraçando “causas nobres” e frequentemente manifesto minhas opiniões, não abrindo mão de certos princípios e convicções.

Mas faz parte da “minha” esperteza, fazer essa distinção e atribuir todas essas atitudes à minha mente, ao meu ego, como se eu já estivesse descolado dessa mente e desse ego.
A verdade é que chegamos a um ponto em que começamos a andar numa corda bamba. Há momentos em que respondemos à vida a partir de nossa consciência pura, e há momentos em que nos perdemos e sutilmente reagimos a partir de nossa mente consciente.

Ao reagir a partir da mente consciente, eu me iludo de que estou descolado dessa mente e do ego, e me assumo como sendo alguém especial, poso de místico e esotérico, faço belos discursos, me coloco à frente de movimentos e entidades. Internamente e paralelamente, permaneço com minha mente catalogando as habilidades espirituais e as percepções sutis que consegui desenvolver ao longo do “meu caminho”, me iludindo de que é o meu “observador interno” que está catalogando, sem querer admitir uma oculta pitada de satisfação ao achar que já alcancei algum patamar mais elevado.

E quando todo esse jogo começa a se revelar, não há mais como mantê-lo de pé. É como Osho diz: ao se acender a luz, a escuridão se vai. Não há como mantê-la quando a luz se faz presente. Num piscar de olhos, todo o castelo se desmorona.
Mas, ainda assim, existe um “pulo do gato” ao qual recorrer. Posso renunciar a tudo, fazer declarações e me recolher ao silêncio e ao anonimato. Assim, esse alguém especial (que sou eu) pode caminhar a esmo pela multidão, pode ser um ninguém. Mas internamente aquela voz ainda continua soprando ao ouvido: “Muito bem! Veja como você é um ninguém no meio da multidão – um ninguém muito especial, cheio de percepções e sensibilidades...”

Ser simples e comum é uma tarefa árdua. Principalmente porque não é um “tornar-se”. É simplesmente começar a observar em mim tudo aquilo que cheira a “especial”. É me despojar de uma série de atributos e valores que fui agregando a mim mesmo. É a árdua tarefa de me desnudar e voltar a ser aquilo que sempre fui, mas não me dou conta mais do que é.

Não se trata de negar todas as conquistas obtidas, todas as compreensões alcançadas, todos os atributos e valores agregados. Ao contrário, é preciso reconhecer o ganho significativo de cada passo que foi dado. Foi através desses passos que cheguei até aqui. Mas agora é hora de reconhecer também este novo passo, este momento novo em que já podemos parar, sentar e abrir esse imenso saco que temos carregado nas costas, no qual fomos acumulando cada experiência, cada sacação, alegrias e dores, amores e desamores.

É chegado o momento em que podemos nos sentar e contemplar toda essa riqueza guardada. Cada experiência, cada sacação, cada emoção, é como se fosse uma pedra preciosa guardada nesse saco imenso que carregamos ao longo da vida. Cada uma marcou um momento especial de maior abertura, de salto qualitativo, de expansão da compreensão e do amor.

E agora, contemplando cada uma dessas pedras preciosas, podemos perceber o quanto ficamos apegados a cada uma delas. Este é o momento de dizer muito obrigado a cada uma dessas pedras e, pouco a pouco, começar a esvaziar o saco. É hora de reaprender a caminhar com nossos próprios pés, de balbuciar as primeiras palavras com nossa própria voz, de descobrir de fato o aroma, o paladar, os sons e as cores da vida. É hora de começar realmente e humildemente a viver a vida como um mistério. Como sempre Osho nos tem dito. Com mais leveza, com mais dança, com mais poesia e com mais silêncio.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Primeiro, seja


Tem momentos em que a gente escolhe que passo quer dar.
E tem momentos que a gente dá um passo porque não consegue dar outro passo senão aquele.
Não é uma questão de escolha. É algo que se torna imperativo.
Eu já vinha me questionando a respeito de continuar ou não com o boletim há uns 3 anos.
Neste último ano eu vim me arrastando. Questionando a cada mês se iria continuar ou não.
A minha intenção era fazer um esforço e continuar com o boletim até final de junho.
Não consegui. O boletim de despedida saiu mesmo em maio.
As razões estão nas entrelinhas da mensagem de despedida que escrevi como editorial nesta última edição de maio.
Não vejo sentido em querer explicitar essas entrelinhas, uma vez que são fatos que não estão diretamente ligados ao boletim e sim ao meu próprio processo pessoal de crescimento.
O que ocorreu foi um gradual desmonte de coisas que realmente eu tinha construído sobre areias, desfazendo-se muitas ilusões, muitas fantasias e muitas expectativas.
A suspensão do boletim foi um subproduto desse meu processo pessoal.

Não cogitei de procurar possíveis interessados em assumir a continuação do boletim, por uma razão principal: o uso do nome Osho Conexão Brasil me foi autorizado por eu ser o responsável pelo Instituto Osho Brasil, o qual está oficialmente filiado à Osho Global Connections de Puna-Índia. Não me cabe repassar essa autorização a terceiros.
Qualquer outra pessoa responsável por algum Centro ou Instituto Osho, também oficialmente filiado, pode solicitar a Puna a necessária autorização para editar um boletim com o mesmo nome ou com outro que inclua o nome Osho. Essa iniciativa caberia a tal pessoa, não a mim.

Estou recebendo dezenas de mensagens – a maioria de agradecimento e reconhecimento pelo trabalho que desenvolvi. Alguns reclamando, pelo vazio que a suspensão do boletim deixará.
Essas mensagens estão chegando carinhosamente em meu coração e me dão a sensação de que fiz o que deveria ter feito ao longo desses anos. Mas, considerando tudo, ainda permaneço com a sensação de que também agora fiz o que deveria ter feito.

Osho nos conta - em Sufis: O Povo do Caminho – que “um homem foi a Buda e disse: ‘Eu tenho muito dinheiro. Tenho muito poder. Apenas me diga como servir às pessoas, como servir à humanidade’. Diz-se que Buda ficou muito silencioso. Ele fechou os olhos. O homem ficou perturbado, confuso. Ele ficou irrequieto e perguntou: ‘Por que você fechou os olhos e por que ficou tão triste?’ Buda abriu os olhos e disse: ‘Sinto uma grande compaixão por você. Você quer servir à humanidade e você não é. Primeiro, seja’.”

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Caminho com Osho - III

Muitos de nós, quando começamos a ler Osho, logo nos encantamos com sua clareza, com a sua maneira simples de ver as coisas e de desmontar os nós que nossas mentes criam ao longo da vida.
Mas, aos poucos, na medida em que essa leitura vai se aprofundando, começam aflorar as necessidades de irmos um pouco além, de trabalharmos questões que antes não incomodavam e que agora começam vir à tona. O que fazer quando surgem essas necessidades? Como trabalhar essas questões segundo a ótica do Osho?

É muito difícil falar sobre esse assunto. Antes de tudo, é preciso considerar que a nossa mente é muito esperta e encontra mil e uma maneiras de camuflar a verdade. Ou seja, é muito difícil a gente se conhecer realmente. Muitas vezes, quem está de fora vê facetas de nosso ego que nós nem percebemos. Por isso um contato pessoal com um terapeuta experiente na linha do Osho é de muita ajuda.

O trabalho com Osho implica em desmontarmos a nossa programação, em desmontarmos o nosso ego através do seu conhecimento, encarando nossas dificuldades, nossos bloqueios, nossas neuras, nossos pontos cegos, nossos buracos negros, enfim, toda a nossa miséria. Como se diz, a ferida tem que ser exposta para poder ser curada e depois cicatrizar. Isso faz parte do processo de auto-conhecimento. E junto com isso tem que acontecer muita prática de meditação, de maneira que, enquanto os lixos vão se dissolvendo, a meditação vai crescendo dentro da gente.

É difícil para qualquer um de nós, dizer que trabalho vai ser bom neste exato momento de nossa vida.
Primeira coisa: Em que ponto nós estamos? Essa é uma pergunta muito difícil para ser respondida mesmo por um terapeuta excelente. E muitos de nós nem somos terapeutas. Eu acho que no fundo, somente cada um pode saber, sentir e intuir o que é bom para si mesmo.
Segunda coisa: quais tipos de trabalho estão disponíveis para cada um de nós fazer? Porque, sob certo sentido, nós só podemos fazer aquilo que estiver disponível para nós. Eu me lembro de ter feito trabalhos que hoje não aconselho para ninguém, mas aqueles eram os trabalhos que estavam disponível para mim. E mediante opiniões e sugestões de amigos mais experientes, conclui que seria bom fazê-los. E eles me ajudaram muito. Embora tenham sido métodos que hoje não acho que sejam os melhores.

A meditação Dinâmica do Osho é uma grande ferramenta. Costuma-se dizer que com a meditação dinâmica não é preciso mais nenhuma terapia.
Mas como fazê-la? A nossa mente é esperta e encontra mil maneiras de sabotar a meditação Dinâmica - estágio por estágio.
Primeiro, a respiração caótica por 10 minutos se for feita corretamente, abre inúmeras portas do mundo de loucuras e repressões que guardamos escondido dentro de nós. E se no segundo estágio, formos totais nos 10 minutos para expressarmos, para colocarmos para fora toda essa loucura e repressão, numa descarga catártica sem limites, estaremos bem esvaziados para no terceiro estágio trazermos energia para nosso centro vital, com o tremendamente energético "hoo-hoo-hoo", desde que a nossa mente não interfira dizendo que é cansativo e que não vamos dar conta. Se esses 3 primeiros estágios forem feitos com totalidade, então será possível no quarto estágio, do "stop", ficarmos absolutamente quietos, congelados, e entrarmos em contato com o silêncio que existe dentro de nós, muito além do mundo das palavras, muito além de toda a verbalização de nossa mente. E por fim, vem o último estágio da dança celebrativa.
Mas a primeira pergunta é: eu faço a meditação dinâmica com totalidade? Existem, pelo menos, condições ambientais para que eu possa fazê-la com totalidade?
Onde fazer a meditação dinâmica dessa forma, sem perturbar vizinhos? E sem deixar a mente interferir e sabotar cada estágio?
É melhor se pudermos fazê-la num grupo, onde quem está começando se sente mais seguro e com mais liberdade e, principalmente, mais estimulado pelos companheiros que estão também se abrindo e se expondo.
O lugar apropriado é um Centro de Meditação Osho. Mas, infelizmente os Centros Osho estão hoje cada vez mais esvaziados. É muito difícil a tarefa de conseguir fazer um Centro de Meditação sobreviver. Os coordenadores precisam se manter financeiramente e manter o centro. É preciso que haja atividades suficientes para manter tudo funcionando. E isso só acontece se houver presença constante e significativa de pessoas interessadas em participar.
Mas as pessoas têm suas mentes espertas e escorregam facilmente de todas as ferramentas que Osho nos deixou. E ficam procurando atalhos oferecidos por outros xamãs, outros gurus, outros mentores que "vendem" suas pílulas mais adocicadas, mais enfeitadas com cores da moda. Alguns até preferem meditações do Osho alteradas e adaptadas por alguns sannyasins que lideram grupos.
Esse é um grande problema para quem quer entrar e experienciar o caminho da meditação de acordo com Osho.

Mas podemos observar e aprender um pouco mais com as ferramentas que Osho nos deixou. Se cada estágio da meditação Dinâmica é uma preparação para o estágio seguinte, isso pode nos dar algumas dicas importantes. Uma delas é que o trabalho com respiração é um dos mais básicos. E também que a catarse, que lhe segue, é fundamental. E na sequência, é muito importante estarmos mais "aterrados" (na concepção de fio terra), fortalecidos em nosso centro, estarmos com os pés nos chão, com vitalidade, presentes e totais. E tudo isso só faz sentido se, na sequência, nos aquietarmos e, absolutamente relaxados e entregues ao aqui e agora, com a curiosidade de uma criancinha pequenina, começarmos a observar, sem qualquer verbalização mental, o desconhecido e maravilhoso mundo do nosso silêncio interno e permanecermos nesse espaço. E, em seguida, celebrarmos a vida, numa atitude de gratidão.

Eu entendo que esse pode ser um bom critério ao escolhermos que tipo de trabalho fazer. Dentre os trabalhos que nos estiverem sendo oferecidos no variado mercado de terapias, se algum deles estiver em sintonia com esses estágios da dinâmica, ou seja, se ele nos propiciar algo que esteja na linha desses estágios, então é possível que ele seja de grande ajuda.
Se examinarmos também os estágios da meditação Kundalini e o significado de cada um - o chacoalhar, o dançar, o sentar e o deitar em silêncio - também poderemos tirar daí algumas conclusões interessantes como dicas para escolhermos trabalhos que nos possam ajudar em nossa caminhada pessoal.

Se pudermos ter o acompanhamento e orientação de um bom e experiente terapeuta que trabalhe na linha do Osho, então estamos com muita sorte, pois isso poderá nos ajudar muito. Se não tivermos esse acompanhamento disponível, então cada um de nós terá que fazer esse trabalho por conta própria de afiar a intuição, as percepções, ficarmos muito alertas quanto às espertezas e jogos de nossa própria mente, fazer uma boa e sincera leitura interna e darmos os passos que pudermos dar a partir do ponto em que estamos, em direção a pontos além de onde estamos, cada vez mais, num crescendo.

E, no meio de tudo isso, é importante lembrar que a vida não é um sacrifício, não é uma luta, não é algo complicado como nossa mente insiste em afirmar. Mesmo sabendo que temos que nos sacrificar em certos momentos, que temos que lutar e que temos que enfrentar situações complicadas, acima de tudo a vida flui além de qualquer expectativa e propósito de nossa mente. E um bom alento é que podemos confiar na existência. Basta lembrar o que Osho nos diz:

"O universo é sempre amoroso e disposto a ampará-lo; para ele você é uma criança.
Ele é muito gentil e com delicadeza toma conta; ele é muito cuidadoso e atencioso.
E se algumas vezes você sente que a existência está dura com você, lembre-se sempre, você deve estar lutando contra ela.
A sua luta cria o problema, de outro modo, a existência é sempre graciosa e maternal."

sexta-feira, 1 de maio de 2009

inner call


Mais um período de repensar a vida e o meu estar no mundo.

Sinto que algumas coisas estão para mudar. Algo dentro de mim está sinalizando, está me cutucando. Certos discursos estão perdendo o significado que tinham para mim. E os compromissos deles advindos perdem a razão de existir.
Por isso, parei coisas que fazia e estou deixando que esses novos apelos interiores se manifestem.

Estou me permitindo seguir os embalos da vida, caminhando a esmo, sem questionar se cada passo é mundano ou divino, se é materialista ou espiritualista, se é vulgar ou sobrenatural.
Estou pronto para largar tudo ou abraçar tudo.
Apenas me interessa, no meio de toda essa caminhada, aguçar minhas percepções para poder ouvir as sutis manifestações dos novos apelos interiores que estão pipocando dentro de mim.

Quero receber esse "inner call" como algo novo, fresco, transformador.
Por isso, caminho a esmo, procurando me desapegar dos conceitos e preconceitos, desde aqueles mais enraizados na infância, até os mais recentes adquiridos na idade adulta, ao som de trombetas, erguendo tochas de uma liberdade presumida e içando bandeiras de um sonho dourado.

Por isso caminho a esmo, aceitando o lixo e o luxo em que tropeço nas ruas, observando-os simplesmente; permitindo-me degustar o nectar dos deuses quando me é oferecido sob um céu estrelado, mas não me furtando a experimentar uma gororoba servida numa espelunca com que me deparo num beco sujo.

Não estou mal nem bem. Não estou triste nem alegre. Este não é o ponto.
Apenas parei e, ao mesmo tempo, continuei andando.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Bons tempos


Recebi um e-mail da Chandra falando dos bons tempos em que editávamos o jornal Osho Times em Brasília e um grande grupo de colaboradores espalhados por todo o Brasil se encarregava de vendê-los ou colocá-los em bancas de revistas. Cada um se comprometia com a venda de um certo número: 5, 10, 20. E havia aqueles que pediam 50 exemplares. E outros que rapidamente vendiam seus lotes e pediam reforço. Assim, eram impressos e vendidos 1.500 jornais todos os meses, nos anos de 1989 e 1990. Em Brasília o nosso grupo contava com o Batohi, o Mardava, o Milarepa, a Asmi e outros colaboradores. Antes de Brasília, os 3 primeiros números do jornal haviam sido editados no Rio, com a Rashki, o Goloka e outros mais. Depois o jornal foi para Porto Alegre, com o Ansu e depois Curitiba com o Jayen. E durante todo esse tempo, a tradução do jornal e a preparação dos fotolitos eram feitas em Puna pelo Gyano, que nos enviava mensalmente pelo correio. Ainda não existia Internet.

A Chandra lembrou que no dia em que Osho deixou o corpo, 19 de janeiro de 1990, os brasileiros que estavam em Puna se preparavam para um show à noite, para arrecadar fundos para o jornal. E ela mesma iria dançar lambada com um sannyasin brasileiro.
Bons tempos aqueles. E bom que a gente estava lá para vivê-los.

Todo o movimento ao redor do Osho, no mundo inteiro era de muita alegria, muitas cores, muita celebração, muita interação dentro do grupo de sannyasins, muitos encontros para meditar e compartilhar experiências, muitos grupos de crescimento com catarse, danças e abertura do coração. Era o “orange people” que se espalhava como uma onda não só no Brasil, mas sobretudo pelos paises do primeiro mundo.

Hoje os tempos são outros. Piores? Melhores? Simplesmente são outros tempos, outra realidade. Talvez estejamos um pouco mais maduros, talvez já tenhamos dissolvido algumas carências e ansiedades mais pesadas. Embora outras mais sutis ainda teimem em permanecer, alimentando ilusões e expectativas que logo se manifestam sob forma de frustrações.

Mas os novos tempos e a nova realidade também nos brindam com novas oportunidades de viver novos bons tempos. E se ficarmos antenados, descobrimos logo a agenda de celebrações e de alegria que a existência programa permanentemente para nós.

A grande diferença que sinto hoje é que antes eu dependia mais da existência de um grupo que agitava e embalava, e me contagiava para participar do agito e do embalo. E o próprio grupo se embalava no ritmo e no rumo que captava nas movimentações do grande maestro que era Osho. Hoje, sozinho, eu consigo me conectar com o embalo das águas, das folhas, do vento, das pessoas, da minha própria variação de humor; entro nos agitos e embalos que quero entrar, driblo e saio fora daqueles que não quero e depois me recolho e descanso, quando sinto que é o momento. Osho permanece como um suave sopro em que me embalo, como uma lembrança permanente para que eu permaneça consciente, não me perca e sim que me encontre no meio de todos esses embalos e agitos da vida,

Os tempos sempre são bons tempos, a realidade sempre oferece oportunidades de celebração, de introspecção, de interação, de êxtase. Somos nós que fazemos a diferença, de acordo com nosso humor, nossas ilusões, nossas expectativas, nossas tensões, nossas crenças e interpretações.

sábado, 14 de março de 2009

Um Dia com Osho - II


De 6 a 8 de março/09.
O encontro aconteceu exatamente do jeito que era para ter acontecido.
Como, aliás, tudo na vida.

Desde que concebi a idéia desse trabalho “Um dia com Osho”, ficou claro para mim que não seria um trabalho “meu”. No máximo, eu seria um facilitador. Todo o material usado seria (e foi) do Osho. Suas técnicas de meditação, textos selecionados de seus livros, trechos de vídeos selecionados de suas palestras, exercícios de relaxamento montados com base em suas dicas. O que poderia chamar de “meu” trabalho foi apenas um cuidado carinhoso de fazer essas seleções e encaixá-las dentro de uma seqüência harmônica e explorando o esplendor da natureza virgem do parque ecológico.

O grupo foi pequeno, o que era perfeitamente previsível. Todos nós sabemos que Osho atrai mas, ao mesmo tempo, provoca calafrios. Se o propósito tivesse sido o de reunir muitas pessoas, teria sido mais apropriado montar um trabalho com um começo, meio e fim, devidamente delineados, sobretudo mensurando previamente o retorno que dele adviria. Mas não era esse o nosso propósito. Meditações do Osho sempre mexem com a gente. Podemos já ter feito Dinâmica por mais de 20 anos, ela sempre pode nos pegar desprevenidos e dar uma rasteira em nosso ego e mente, colocando-nos cara a cara com situações que não gostamos de ver. Palestras do Osho em vídeo, com seus gestos, sua voz e seu olhar podem nos surpreender e desmontar nossas torres de controle. Inconscientemente encontramos mil razões para não podermos estar presentes num evento como este.

O ambiente natural cumpriu o seu papel. Todos nós nos sentimos tocados pela natureza pura, cercados por matas, cachoeiras, rochas esculpidas nas paredes dos canyons, pássaros, borboletas variadas, o ar puro, a água potável, o silêncio. Também nos tocou muito a boa acolhida que a pousada nos propiciou, a presença do anfitrião Ricardo com seus “causos mineiros” e a boa Don’Ana com sua comida gostosa. Tudo facilitou a nossa sensação de “estarmos em casa” e relaxados.

Gostei da minha atuação como facilitador e dos feed-backs que recebi dos participantes. Gostei de ter conduzido as atividades de maneira bem leve e totalmente integrado ao grupo. Pudemos relaxar e as atividades se acomodaram ao ritmo da própria natureza. Vivenciamos todas as práticas previstas e tivemos tempo suficiente para conversar sobre tudo. Foram muito ricos os momentos em que compartilhamos nossas experiências. E como o grupo era pequeno, muitas vezes compartilhamos informalmente durante o café da manhã e o almoço, antecipando abordagens previstas para acontecer no salão. Tudo contribuiu para nos tornarmos amigos e, em alguns momentos, até confidentes.

Tivemos momentos mágicos como a observação do pouso das andorinhões, no final da tarde, que de repente surgem em bandos no céu, bem lá no alto, e descem como se fossem jatos de guerra, numa velocidade certeira em direção aos esconderijos nas paredes escuras das rochas. Também foi muito especial a meditação que fizemos ao lado da cachoeira, utilizando uma técnica orientada por Osho no Livro dos Segredos. O som da cachoeira funciona como excelente recurso para driblarmos a tagarelice da mente.

O formato básico desse workshop se acomoda em um dia de atividades. Por isso o nome “Um dia com Osho”. Mas, na Estação Andorinhas, devido à exuberância da natureza e ao ambiente de relaxamento e recolhimento, o workshop dura quase dois dias, com o acréscimo de algumas práticas e a liberação de um tempo para explorarmos e curtirmos o espaço. Com certeza o workshop na Estação Andorinhas tem um sabor especial. Que o digam a Khilma que viajou 12 horas para participar e a Mel que viajou outras 7 horas.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sábado de carnaval

Quando conheci Osho, ele me atraiu muito mais pela sua irreverência do que pelo conteúdo de sua mensagem. Fiquei muito intrigado com aquele demolidor das instituições, das crenças e das ideologias. Um homem que não queria ser inspirador nem guia de ninguém, muito menos ser líder de um movimento. Ele me desafiava a fazer meus próprios experimentos e chegar às minhas conclusões, não aceitando passivamente as conclusões dele.

Osho me atraiu mais ainda quando li ele se declarando incoerente e contraditório, porque assim é a vida. Ao mesmo tempo que eu percebia uma profunda lógica em tudo o que ele dizia, ele se permitia ser ilógico.

Com essas abordagens, Osho cutucou uma semente escondida que eu preservava com muito carinho dentro de mim. Era a semente da rebeldia que, desde minha adolescência, se manifestava, embora timidamente, um pouquinho aqui, um pouquinho ali.

Antes de conhecer Osho, um dia eu tinha acordado e percebido que admirava vários amigos pela coragem de terem rompido com as estruturas que os amarravam. E mais, eu os citava com freqüência em minhas conversas. Um abandonara a faculdade, outro abandonara a família, outro largou as perspectivas de uma carreira promissora, um foi viver às margens do Amazonas e outro foi viver junto a cachoeiras e grutas. Naquele dia, eu olhei para mim mesmo e me perguntei: E eu? Onde fico no meio disso? O que estou fazendo com minha vida? Percebi então claramente todos os nós que me mantinham amarrado, sentado numa cadeira, numa vida burocrática. Eram nós atados com os meus esforços e tentativas de conseguir segurança na vida e me prevenir contra as incertezas.

Quando conheci Osho senti nele um convite, uma provocação, um empurrão para que eu liberasse a minha semente oculta, para que eu mudasse o meu discurso, parando de citar a coragem e o salto no escuro dos outros e começasse eu mesmo a experimentar meus próprios saltos, a me expor e arriscar viver mais intensamente, a conhecer e saborear as várias nuances da vida.

Aprendi com Osho que não adianta querer segurar a correnteza do rio, não adianta querer ter certezas sobre o rumo que as águas irão tomar. A vida jorra cheia de imprevistos, cheia de riscos, cheia de incertezas. Foi uma lição e tanto.

“Liberdade significa caminhar no fio da navalha – a todo momento correndo perigo. Cada momento é um desafio vindo do desconhecido. Algumas vezes é quente demais e outras vezes é muito frio – e não há ninguém para cuidar de você.” (Osho – The Golden Future – Cap.26).

Era preciso aprender a caminhar como o equilibrista.

“A vida é como andar na corda bamba: é preciso o esforço correto e consciência para que você não caia. A cada momento existe perigo: se você se inclinar muito para a esquerda, irá cair. Sentindo que está se inclinando muito para a esquerda, você tem que se voltar para a direita, para manter o equilíbrio. E quando você se volta para a direita, chega um momento em que você sente que vai cair para a direita; então você começa a se inclinar para a esquerda, apenas para manter o equilíbrio. Esse é o esforço correto: manter-se equilibrado.” (Osho – The Dhammapada – vol.6 – cap. 3)

Precisei de um tempo, praticando essa lição, quando recebi um novo toque para dar mais um passo adiante. Foi quando li Osho dizendo que o desafio maior é curtir e celebrar a caminhada no fio da navalha. Isso foi demais.

Está certo que eu já havia aprendido (ou estava aprendendo) que viver é expor-se ao risco, à incerteza. E se não há outra maneira de se viver, a não ser caminhando no fio da navalha, então só nos resta mesmo curtir e celebrar essa caminhada. Ou seja, só nos resta estar abertos e receptivos para o que a vida nos apresentar, estar de prontidão para o que der e vier, e celebrar tudo, o frio e o quente, o sol e a chuva, a dor e a alegria, os picos e os vales. Tudo é incerto e perigoso, mas também tudo é fugaz, nada é permanente. Como diz o ditado: não há mal que sempre dure e não há bem que não se acabe.

E ao invés de querer entender os sinais da vida, ao invés de buscar uma explicação para o que está acontecendo, a grande sacada é simplesmente aceitar a vida como um mistério que se revela a cada momento. E aceitar com um sim, com alegria e celebração.
Então, nada mais nos resta a fazer senão curtir e celebrar o milagre da vida, seja neste sábado de carnaval, seja nos outros 364 dias do ano.