sexta-feira, 27 de março de 2009

Bons tempos


Recebi um e-mail da Chandra falando dos bons tempos em que editávamos o jornal Osho Times em Brasília e um grande grupo de colaboradores espalhados por todo o Brasil se encarregava de vendê-los ou colocá-los em bancas de revistas. Cada um se comprometia com a venda de um certo número: 5, 10, 20. E havia aqueles que pediam 50 exemplares. E outros que rapidamente vendiam seus lotes e pediam reforço. Assim, eram impressos e vendidos 1.500 jornais todos os meses, nos anos de 1989 e 1990. Em Brasília o nosso grupo contava com o Batohi, o Mardava, o Milarepa, a Asmi e outros colaboradores. Antes de Brasília, os 3 primeiros números do jornal haviam sido editados no Rio, com a Rashki, o Goloka e outros mais. Depois o jornal foi para Porto Alegre, com o Ansu e depois Curitiba com o Jayen. E durante todo esse tempo, a tradução do jornal e a preparação dos fotolitos eram feitas em Puna pelo Gyano, que nos enviava mensalmente pelo correio. Ainda não existia Internet.

A Chandra lembrou que no dia em que Osho deixou o corpo, 19 de janeiro de 1990, os brasileiros que estavam em Puna se preparavam para um show à noite, para arrecadar fundos para o jornal. E ela mesma iria dançar lambada com um sannyasin brasileiro.
Bons tempos aqueles. E bom que a gente estava lá para vivê-los.

Todo o movimento ao redor do Osho, no mundo inteiro era de muita alegria, muitas cores, muita celebração, muita interação dentro do grupo de sannyasins, muitos encontros para meditar e compartilhar experiências, muitos grupos de crescimento com catarse, danças e abertura do coração. Era o “orange people” que se espalhava como uma onda não só no Brasil, mas sobretudo pelos paises do primeiro mundo.

Hoje os tempos são outros. Piores? Melhores? Simplesmente são outros tempos, outra realidade. Talvez estejamos um pouco mais maduros, talvez já tenhamos dissolvido algumas carências e ansiedades mais pesadas. Embora outras mais sutis ainda teimem em permanecer, alimentando ilusões e expectativas que logo se manifestam sob forma de frustrações.

Mas os novos tempos e a nova realidade também nos brindam com novas oportunidades de viver novos bons tempos. E se ficarmos antenados, descobrimos logo a agenda de celebrações e de alegria que a existência programa permanentemente para nós.

A grande diferença que sinto hoje é que antes eu dependia mais da existência de um grupo que agitava e embalava, e me contagiava para participar do agito e do embalo. E o próprio grupo se embalava no ritmo e no rumo que captava nas movimentações do grande maestro que era Osho. Hoje, sozinho, eu consigo me conectar com o embalo das águas, das folhas, do vento, das pessoas, da minha própria variação de humor; entro nos agitos e embalos que quero entrar, driblo e saio fora daqueles que não quero e depois me recolho e descanso, quando sinto que é o momento. Osho permanece como um suave sopro em que me embalo, como uma lembrança permanente para que eu permaneça consciente, não me perca e sim que me encontre no meio de todos esses embalos e agitos da vida,

Os tempos sempre são bons tempos, a realidade sempre oferece oportunidades de celebração, de introspecção, de interação, de êxtase. Somos nós que fazemos a diferença, de acordo com nosso humor, nossas ilusões, nossas expectativas, nossas tensões, nossas crenças e interpretações.

sábado, 14 de março de 2009

Um Dia com Osho - II


De 6 a 8 de março/09.
O encontro aconteceu exatamente do jeito que era para ter acontecido.
Como, aliás, tudo na vida.

Desde que concebi a idéia desse trabalho “Um dia com Osho”, ficou claro para mim que não seria um trabalho “meu”. No máximo, eu seria um facilitador. Todo o material usado seria (e foi) do Osho. Suas técnicas de meditação, textos selecionados de seus livros, trechos de vídeos selecionados de suas palestras, exercícios de relaxamento montados com base em suas dicas. O que poderia chamar de “meu” trabalho foi apenas um cuidado carinhoso de fazer essas seleções e encaixá-las dentro de uma seqüência harmônica e explorando o esplendor da natureza virgem do parque ecológico.

O grupo foi pequeno, o que era perfeitamente previsível. Todos nós sabemos que Osho atrai mas, ao mesmo tempo, provoca calafrios. Se o propósito tivesse sido o de reunir muitas pessoas, teria sido mais apropriado montar um trabalho com um começo, meio e fim, devidamente delineados, sobretudo mensurando previamente o retorno que dele adviria. Mas não era esse o nosso propósito. Meditações do Osho sempre mexem com a gente. Podemos já ter feito Dinâmica por mais de 20 anos, ela sempre pode nos pegar desprevenidos e dar uma rasteira em nosso ego e mente, colocando-nos cara a cara com situações que não gostamos de ver. Palestras do Osho em vídeo, com seus gestos, sua voz e seu olhar podem nos surpreender e desmontar nossas torres de controle. Inconscientemente encontramos mil razões para não podermos estar presentes num evento como este.

O ambiente natural cumpriu o seu papel. Todos nós nos sentimos tocados pela natureza pura, cercados por matas, cachoeiras, rochas esculpidas nas paredes dos canyons, pássaros, borboletas variadas, o ar puro, a água potável, o silêncio. Também nos tocou muito a boa acolhida que a pousada nos propiciou, a presença do anfitrião Ricardo com seus “causos mineiros” e a boa Don’Ana com sua comida gostosa. Tudo facilitou a nossa sensação de “estarmos em casa” e relaxados.

Gostei da minha atuação como facilitador e dos feed-backs que recebi dos participantes. Gostei de ter conduzido as atividades de maneira bem leve e totalmente integrado ao grupo. Pudemos relaxar e as atividades se acomodaram ao ritmo da própria natureza. Vivenciamos todas as práticas previstas e tivemos tempo suficiente para conversar sobre tudo. Foram muito ricos os momentos em que compartilhamos nossas experiências. E como o grupo era pequeno, muitas vezes compartilhamos informalmente durante o café da manhã e o almoço, antecipando abordagens previstas para acontecer no salão. Tudo contribuiu para nos tornarmos amigos e, em alguns momentos, até confidentes.

Tivemos momentos mágicos como a observação do pouso das andorinhões, no final da tarde, que de repente surgem em bandos no céu, bem lá no alto, e descem como se fossem jatos de guerra, numa velocidade certeira em direção aos esconderijos nas paredes escuras das rochas. Também foi muito especial a meditação que fizemos ao lado da cachoeira, utilizando uma técnica orientada por Osho no Livro dos Segredos. O som da cachoeira funciona como excelente recurso para driblarmos a tagarelice da mente.

O formato básico desse workshop se acomoda em um dia de atividades. Por isso o nome “Um dia com Osho”. Mas, na Estação Andorinhas, devido à exuberância da natureza e ao ambiente de relaxamento e recolhimento, o workshop dura quase dois dias, com o acréscimo de algumas práticas e a liberação de um tempo para explorarmos e curtirmos o espaço. Com certeza o workshop na Estação Andorinhas tem um sabor especial. Que o digam a Khilma que viajou 12 horas para participar e a Mel que viajou outras 7 horas.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sábado de carnaval

Quando conheci Osho, ele me atraiu muito mais pela sua irreverência do que pelo conteúdo de sua mensagem. Fiquei muito intrigado com aquele demolidor das instituições, das crenças e das ideologias. Um homem que não queria ser inspirador nem guia de ninguém, muito menos ser líder de um movimento. Ele me desafiava a fazer meus próprios experimentos e chegar às minhas conclusões, não aceitando passivamente as conclusões dele.

Osho me atraiu mais ainda quando li ele se declarando incoerente e contraditório, porque assim é a vida. Ao mesmo tempo que eu percebia uma profunda lógica em tudo o que ele dizia, ele se permitia ser ilógico.

Com essas abordagens, Osho cutucou uma semente escondida que eu preservava com muito carinho dentro de mim. Era a semente da rebeldia que, desde minha adolescência, se manifestava, embora timidamente, um pouquinho aqui, um pouquinho ali.

Antes de conhecer Osho, um dia eu tinha acordado e percebido que admirava vários amigos pela coragem de terem rompido com as estruturas que os amarravam. E mais, eu os citava com freqüência em minhas conversas. Um abandonara a faculdade, outro abandonara a família, outro largou as perspectivas de uma carreira promissora, um foi viver às margens do Amazonas e outro foi viver junto a cachoeiras e grutas. Naquele dia, eu olhei para mim mesmo e me perguntei: E eu? Onde fico no meio disso? O que estou fazendo com minha vida? Percebi então claramente todos os nós que me mantinham amarrado, sentado numa cadeira, numa vida burocrática. Eram nós atados com os meus esforços e tentativas de conseguir segurança na vida e me prevenir contra as incertezas.

Quando conheci Osho senti nele um convite, uma provocação, um empurrão para que eu liberasse a minha semente oculta, para que eu mudasse o meu discurso, parando de citar a coragem e o salto no escuro dos outros e começasse eu mesmo a experimentar meus próprios saltos, a me expor e arriscar viver mais intensamente, a conhecer e saborear as várias nuances da vida.

Aprendi com Osho que não adianta querer segurar a correnteza do rio, não adianta querer ter certezas sobre o rumo que as águas irão tomar. A vida jorra cheia de imprevistos, cheia de riscos, cheia de incertezas. Foi uma lição e tanto.

“Liberdade significa caminhar no fio da navalha – a todo momento correndo perigo. Cada momento é um desafio vindo do desconhecido. Algumas vezes é quente demais e outras vezes é muito frio – e não há ninguém para cuidar de você.” (Osho – The Golden Future – Cap.26).

Era preciso aprender a caminhar como o equilibrista.

“A vida é como andar na corda bamba: é preciso o esforço correto e consciência para que você não caia. A cada momento existe perigo: se você se inclinar muito para a esquerda, irá cair. Sentindo que está se inclinando muito para a esquerda, você tem que se voltar para a direita, para manter o equilíbrio. E quando você se volta para a direita, chega um momento em que você sente que vai cair para a direita; então você começa a se inclinar para a esquerda, apenas para manter o equilíbrio. Esse é o esforço correto: manter-se equilibrado.” (Osho – The Dhammapada – vol.6 – cap. 3)

Precisei de um tempo, praticando essa lição, quando recebi um novo toque para dar mais um passo adiante. Foi quando li Osho dizendo que o desafio maior é curtir e celebrar a caminhada no fio da navalha. Isso foi demais.

Está certo que eu já havia aprendido (ou estava aprendendo) que viver é expor-se ao risco, à incerteza. E se não há outra maneira de se viver, a não ser caminhando no fio da navalha, então só nos resta mesmo curtir e celebrar essa caminhada. Ou seja, só nos resta estar abertos e receptivos para o que a vida nos apresentar, estar de prontidão para o que der e vier, e celebrar tudo, o frio e o quente, o sol e a chuva, a dor e a alegria, os picos e os vales. Tudo é incerto e perigoso, mas também tudo é fugaz, nada é permanente. Como diz o ditado: não há mal que sempre dure e não há bem que não se acabe.

E ao invés de querer entender os sinais da vida, ao invés de buscar uma explicação para o que está acontecendo, a grande sacada é simplesmente aceitar a vida como um mistério que se revela a cada momento. E aceitar com um sim, com alegria e celebração.
Então, nada mais nos resta a fazer senão curtir e celebrar o milagre da vida, seja neste sábado de carnaval, seja nos outros 364 dias do ano.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Surpresas da vida


Eu acabara de chegar em Manhattan.
Vinha do Brooklyn, onde, por obra do acaso, metade de meu coração resolveu fincar raízes.
Deixei o metrô e, subitamente, me vi diante da Praça da Estação.

Parecia que tudo estava do mesmo jeito... Um pouco de poeira, é claro, mas o mesmo ponto de táxi e o Cine São Luís, à esquerda. Mas não naquela sua fase decadente em que só exibia filmes pornô. Não, era o Cine São Luís onde eu assistia todos os domingos de manhã aos emocionantes filmes de faroeste e onde, diante da entrada principal, a meninada espalhava pelo chão os gibis usados para o esperado troca-troca.

Foi exatamente do velho prédio da estação da Central que vi Maria Teresa descendo as escadas. Ela vinha como uma princesa, com um longo vestido branco e com um chapéu bordado, também branco. Ela me viu e sorriu.
Ah! Pensei eu, há quantos anos esperava por esse sorriso...
Foram precisos 40 anos para que esse encontro se consumasse. Assim, desta maneira, simples e inocente, sem amarras, sem precisar pedir licença.

Por que 40 anos? Eu fiquei e ainda fico me perguntando.
Por que esperar 40 anos para realizar tantas coisas que num estalar de dedos sempre estiveram exatamente ali na minha frente?
E nesta hora eu me pergunto: quantas coisas mais eu aspiro e posso realizar e que, na minha inconsciência nem me dou conta de que estão ali à minha disposição, aguardando apenas o meu simples estalar de dedos?
Será que terei que sair pelas ruas, procurando atrás dos velhos prédios, nos becos e praças públicas? Onde estão essas coisas ou essas pessoas ou essas experiências ainda não vividas e ávidas de receberem um sopro humano, e que certamente estão aguardando por mim em alguma esquina?
Terei que ir novamente à Índia, ou estará aqui do lado, na subida da rua Antônio Carlos onde num dia encontrei Gisele, o grande amor de minha vida que no outro dia virou sorvete e derreteu?

Realmente não sei. São muitas indagações para minha cabeça. Acho melhor virar para o canto e dormir novamente. Quem sabe se amanhã a vida vai me presentear com uma agradável surpresa?

sábado, 31 de janeiro de 2009

Iluminação


Iluminação não é algo tão simples como pode parecer, principalmente diante do grande pelotão de pessoas que se declaram iluminadas hoje em dia. Parece que virou moda declarar-se iluminado.
A nossa mente pode criar uma série de argumentos, uma série de raciocínios, uma série de justificativas e explicações a respeito do que é iluminação. A nossa mente analisa as atitudes, as palavras, a aparência de um iluminado ou de alguém que se declara iluminado, e tira suas conclusões.
Mas eu entendo que a experiência de iluminação é algo que transcende a tudo isso que possa ser descrito pela mente.
Eu sei que Osho é iluminado pelo que ele transmite em seu olhar, em seus gestos, em sua presença, no amor que permeia suas palavras. A serenidade dele é imperturbável.
Você olha nos olhos dele e vê o vazio, vazio de ego. É de fato um bambu oco. Mesmo num vídeo dá para se perceber isso.

Neste blog, eu postei um artigo em 19/01/09, onde disse: "um dia a gente encontra a chave que nos abre a porta do silêncio e quietude interior, sem qualquer técnica. Um dia a gente começa a ter vislumbres reais do nosso centro mais interno, onde está a nossa fonte de sabedoria e discernimento e então podemos dizer que estamos dando o quarto passo para realmente conhecer Osho. Eu entendo que é nesse espaço de silêncio e paz, nesse vazio interno, nessa quietude, que realmente nos encontramos com Osho, nos encontramos conosco mesmo, nos encontramos com Deus."
Mas isso são apenas vislumbres que a gente consegue ter. Às vezes essa experiência se torna muito forte e até parece que vamos explodir em êxtase. No máximo isso pode ser um satori, que ainda assim é apenas um vislumbre da luz mais ampla e intensa que podemos alcançar.
Por tudo que li do Osho (não é pela minha experiência, mas sim pela leitura do Osho), compreendi que a iluminação chega quando esse vislumbre se torna um estado permanente de ser. A pessoa vive 24 horas por dia esse vislumbre, esse êxtase, esse estado em que todas as suas percepções estão afloradas, todo o seu potencial vem à tona, e vive isso naturalmente, espontaneamente. É quando Osho diz que qualquer ato da pessoa, por menor que seja, acontece meditativamente, graciosamente, cheio de luz.

Através dos toques do Osho, entendi que a iluminação chega à pessoa, a iluminação acontece. A pessoa não faz práticas específicas para isso. Não adianta querer apressar esse acontecer. Não é assim que ocorre. Mas é preciso percorrer um caminho e não se pode perder a naturalidade e a espontaneidade. E na maior parte das vezes essa naturalidade e espontaneidade ainda têm que ser resgatadas, pois foram sufocadas ao longo de nossa vida. E tem muito mais coisas a serem resgatadas: a nossa alegria, o nosso prazer, a nossa sensitividade... Então eu entendo que esse é um caminhar onde cada passo é criado a cada momento, onde o cuidado tem que estar sempre presente, onde a sintonia com o nosso centro é fundamental para que possamos responder a cada situação a partir desse centro mais interno e mais puro e não a partir de nosso ego, não a partir de nossos condicionamentos. É uma longa caminhada onde a prática regular de meditação é fundamental, senão a gente escorrega e cai na mente, cai no ego, cai na programação e perde essa sintonia com nosso centro. Este é o ponto onde eu sinto que me encontro hoje, buscando essa regularidade na meditação, buscando trazer consciência para cada ato, procurando estar presente em cada momento. E estar presente não é estar com a mente presente, analisando e acompanhando e registrando cada fato. É estar conectado com o nosso centro mais interno a cada momento, a cada agir, a cada falar, a cada fazer.

Entendi através das leituras do Osho que a iluminação chega à pessoa quando ela está vulnerável, receptiva e aberta. E ele diz que a iluminação acontece num piscar de olhos. Mas para se chegar até esse ponto, o caminho tem que ser percorrido. E aí é aquela velha história: temos que praticar muitas técnicas de meditação, durante muitos anos, até descobrirmos a chave que abre a porta do silêncio e quietude interior, como disse no meu artigo acima citado. E, mais apropriadamente, como foi dito por Osho no texto do boletim deste mês de fevereiro:
"No meio da noite, você acordará, sentará na cama e simplesmente entrará em sua solitude. E isto é apenas uma questão de seguir repetindo. Na medida em que você vai se movendo para dentro e para fora, vai ficando mais fácil, o caminho se torna mais leve. Isso se torna tão fácil que a qualquer momento você simplesmente fecha os olhos e imediatamente alcança o centro, sem perder um átimo de segundo. Então, até na praça do mercado você pode estar só, no meio da multidão. E você sentirá uma certa alegria crescendo em você, uma certa canção surgindo em seu silêncio, uma certa fragrância que você nunca conheceu antes."

Eu suponho que, depois que a pessoa chega nesse ponto, trazendo cada vez mais a meditação para a sua vida, ela poderá dar mais um passo que é esse estado de vulnerabilidade, abertura e receptividade em que Osho diz que um clique acontece e a pessoa acorda.
Com certeza esse estado ainda não faz parte de minha experiência.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Cadê o fio da barba de Jesus?


Vó Ângela era uma matriarca típica. E ela tinha seus méritos. Aprendeu rapidamente a língua de sua nova terra e logo conseguiu trabalhar como professora de português. A morte do marido Pietro complicou um pouco sua vida, afinal haviam chegado da Itália, fazia pouco tempo, no final do século XIX com três filhos a tira-colo.

Mas vó Ângela não se fez de rogada e aceitou logo casar-se novamente com aquele que viemos a conhecer como padrinho Artur. Padrinho porque ele era muito vaidoso e não aceitava ser chamado do avô. Ele era austríaco, fugiu das várias guerras do império Austro-húngaro na segunda metade do século XIX e clandestinamente chegou ao Brasil, escondendo-se nas vizinhanças de Juiz de Fora. Casara-se com uma ex-escrava que lhe deu quatro filhos antes de morrer e deixá-lo viúvo. Padrinho Artur ostentava com orgulho a foto de Francisco José I, imperador da Áustria e rei da Hungria, casado com a mulher considerada mais bonita de seu tempo, Isabel da Baviera, conhecida na família com o nome de Sissi, que veio a ser vivida no cinema por Romy Schneider, um sucesso de bilheteria, nos anos 50.

Conta-se que antes de vir para o Brasil, durante a guerra da unificação italiana, quando a região de Veneza era disputada entre austríacos e italianos, um padre italiano bateu na porta da casa de vó Ângela pedindo para se esconder, pois estava sob a mira dos soldados. Na madrugada, o padre foi embora sem ao menos se despedir. De manhã encontraram uma caixinha esquecida pelo padre, dentro da qual havia um fio da barba de Jesus (!?).

É bom lembrar que no início dos tempos modernos, a igreja “vendia”, ou seja, concedia indulgência a quem comprasse relíquias sagradas. Conta-se que havia 19.000 pedaços de ossos sagrados à venda e que com os fragmentos da cruz de Cristo disponíveis seria possível construir uma esquadra como a de Cabral, com treze navios. Isso talvez explique como o fio da barba de Jesus chegou em Juiz de Fora numa caixinha da vó Ângela. Vó Ângela deixou o corpo antes de 1940 e com ela desapareceu a tal caixinha. Conta minha mãe, que só os mais velhos tiveram acesso ao tal conteúdo da caixa. Nada mais ela sabe dizer a respeito. Eu sempre fiquei me perguntando: será que existiu a tal caixinha?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Para se conhecer Osho


Na minha maneira de ver, existem quatro passos fundamentais para se conhecer a mensagem do Osho.
A gente começa lendo seus livros. Eu li o primeiro livro do Osho em 1982 e não parei mais.
Ele fala de questões delicadas e complexas sobre as quais sempre tivemos dificuldades de compreender quando lemos os textos de mestres do passado. Ele fala de maneira simples, clara e de fácil compreensão. E como todos temos a semente da sabedoria escondida em nós, ao vê-lo falar essa verdade surge logo uma ressonância dentro de nós. Por isso muita gente diz: “eu gosto do Osho porque ele fala exatamente as coisas que eu penso. Temos opiniões muito parecidas.” Não nos damos conta de que não se trata de uma verdade dele ou minha. A verdade é eterna e universal. É disso que ele nos fala. E ele fala de uma maneira tão poética que facilmente ficamos envolvidos.

Depois que ficamos “viciados” em ler Osho, descobrimos que ele não escreveu esses livros. Eles são transcrições de suas palestras. Eu quis então vê-lo falar, tive vontade de conhecer os vídeos com suas palestras. No meu começo, Osho ainda estava no corpo e eu fui até Puna para vê-lo pessoalmente. Não tinha como não ir. Senti o chamado de maneira irresistível. É claro que hoje as coisas são diferentes pois Osho não está no corpo. E além disso, nem todos sentem essa vontade de querer ver seus vídeos e ficam mesmo no nível mais intelectual e filosófico. Mas quando vemos o seu vídeo com o coração aberto, com a mente esvaziada, não há como não ficarmos fascinados com sua presença, seus gestos e seu olhar, que dizem muito mais que as palavras.

O terceiro passo, que é muito importante, costuma vir junto com as leituras ou com os vídeos. É quando descobrimos que o centro de sua mensagem é a meditação. Quando temos a sorte de viver numa cidade em que funciona um Centro de Meditação, então mergulhamos fundo na Dinâmica, na Kundalini, na Nataraj, na Nadabrahma e em várias outras técnicas por ele criadas. Lembro-me de como todas essas técnicas mexiam (e ainda mexem) comigo. Organizávamos grupos para ir a um sítio num final de semana e fazíamos, por nossa conta, maratonas de meditações. Em casa, os amigos se reuniam para meditar com uma freqüência que hoje não vejo ser tão comum.

A verdade, é que quando entramos na prática de meditações é que começamos a verdadeira aventura. Começamos a mergulhar em nosso espaço interior, um espaço até então não explorado. Ele é vazio e silencioso, mas com uma profundidade e uma paz que nos toma e deixa uma irresistível vontade de querer experimentar mais.
No começo é normal fazermos confusão e entendermos errado uma série de sensações e imagens que nos surgem. Mas Osho deixou-nos muitas orientações e esclarecimentos que facilitam o nosso caminho. Sempre gostei de recorrer ao “Meditação: Primeira e Última Liberdade” para ouvir do Osho as explicações sobre o que é de fato meditação e o que é viagem da minha mente.
As técnicas de meditação do Osho são ferramentas muito importantes para nós ocidentais e modernos. As velhas técnicas orientais dificilmente funcionam de fato para homem estressado e apressado de nossos dias. Podem até propiciar um relaxamento e servir de "refresco" no meio da confusão diária. Mas isso é muito pouco diante da grande revolução que a meditação pode propiciar na vida de um meditador.

Na minha experiência pessoal, eu pude perceber com a prolongada prática de meditações do Osho ao longo dos anos, que suas técnicas nos preparam para um dia descobrirmos aquilo que ele mesmo disse: que as técnicas são apenas técnicas e que a meditação é algo que está além das técnicas. E que um dia a gente encontra a chave que nos abre a porta do silêncio e quietude interior, sem qualquer técnica.
Um dia a gente começa a ter vislumbres reais do nosso centro mais interno, onde está a nossa fonte de sabedoria e discernimento e então podemos dizer que estamos dando o quarto passo para realmente conhecer Osho. Eu entendo que é nesse espaço de silêncio e paz, nesse vazio interno, nessa quietude, que realmente nos encontramos com Osho, nos encontramos conosco mesmo, nos encontramos com Deus.
O mergulho nesse espaço, cada vez mais fundo é o processo de autoconhecimento.
A jornada é longa, mas é uma bela jornada. É como perseguir o arco-iris num caminho cheio de aventuras e surpresas. Vale a pena. Na verdade, é a única coisa que vale a pena.