terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Surpresas da vida


Eu acabara de chegar em Manhattan.
Vinha do Brooklyn, onde, por obra do acaso, metade de meu coração resolveu fincar raízes.
Deixei o metrô e, subitamente, me vi diante da Praça da Estação.

Parecia que tudo estava do mesmo jeito... Um pouco de poeira, é claro, mas o mesmo ponto de táxi e o Cine São Luís, à esquerda. Mas não naquela sua fase decadente em que só exibia filmes pornô. Não, era o Cine São Luís onde eu assistia todos os domingos de manhã aos emocionantes filmes de faroeste e onde, diante da entrada principal, a meninada espalhava pelo chão os gibis usados para o esperado troca-troca.

Foi exatamente do velho prédio da estação da Central que vi Maria Teresa descendo as escadas. Ela vinha como uma princesa, com um longo vestido branco e com um chapéu bordado, também branco. Ela me viu e sorriu.
Ah! Pensei eu, há quantos anos esperava por esse sorriso...
Foram precisos 40 anos para que esse encontro se consumasse. Assim, desta maneira, simples e inocente, sem amarras, sem precisar pedir licença.

Por que 40 anos? Eu fiquei e ainda fico me perguntando.
Por que esperar 40 anos para realizar tantas coisas que num estalar de dedos sempre estiveram exatamente ali na minha frente?
E nesta hora eu me pergunto: quantas coisas mais eu aspiro e posso realizar e que, na minha inconsciência nem me dou conta de que estão ali à minha disposição, aguardando apenas o meu simples estalar de dedos?
Será que terei que sair pelas ruas, procurando atrás dos velhos prédios, nos becos e praças públicas? Onde estão essas coisas ou essas pessoas ou essas experiências ainda não vividas e ávidas de receberem um sopro humano, e que certamente estão aguardando por mim em alguma esquina?
Terei que ir novamente à Índia, ou estará aqui do lado, na subida da rua Antônio Carlos onde num dia encontrei Gisele, o grande amor de minha vida que no outro dia virou sorvete e derreteu?

Realmente não sei. São muitas indagações para minha cabeça. Acho melhor virar para o canto e dormir novamente. Quem sabe se amanhã a vida vai me presentear com uma agradável surpresa?

sábado, 31 de janeiro de 2009

Iluminação


Iluminação não é algo tão simples como pode parecer, principalmente diante do grande pelotão de pessoas que se declaram iluminadas hoje em dia. Parece que virou moda declarar-se iluminado.
A nossa mente pode criar uma série de argumentos, uma série de raciocínios, uma série de justificativas e explicações a respeito do que é iluminação. A nossa mente analisa as atitudes, as palavras, a aparência de um iluminado ou de alguém que se declara iluminado, e tira suas conclusões.
Mas eu entendo que a experiência de iluminação é algo que transcende a tudo isso que possa ser descrito pela mente.
Eu sei que Osho é iluminado pelo que ele transmite em seu olhar, em seus gestos, em sua presença, no amor que permeia suas palavras. A serenidade dele é imperturbável.
Você olha nos olhos dele e vê o vazio, vazio de ego. É de fato um bambu oco. Mesmo num vídeo dá para se perceber isso.

Neste blog, eu postei um artigo em 19/01/09, onde disse: "um dia a gente encontra a chave que nos abre a porta do silêncio e quietude interior, sem qualquer técnica. Um dia a gente começa a ter vislumbres reais do nosso centro mais interno, onde está a nossa fonte de sabedoria e discernimento e então podemos dizer que estamos dando o quarto passo para realmente conhecer Osho. Eu entendo que é nesse espaço de silêncio e paz, nesse vazio interno, nessa quietude, que realmente nos encontramos com Osho, nos encontramos conosco mesmo, nos encontramos com Deus."
Mas isso são apenas vislumbres que a gente consegue ter. Às vezes essa experiência se torna muito forte e até parece que vamos explodir em êxtase. No máximo isso pode ser um satori, que ainda assim é apenas um vislumbre da luz mais ampla e intensa que podemos alcançar.
Por tudo que li do Osho (não é pela minha experiência, mas sim pela leitura do Osho), compreendi que a iluminação chega quando esse vislumbre se torna um estado permanente de ser. A pessoa vive 24 horas por dia esse vislumbre, esse êxtase, esse estado em que todas as suas percepções estão afloradas, todo o seu potencial vem à tona, e vive isso naturalmente, espontaneamente. É quando Osho diz que qualquer ato da pessoa, por menor que seja, acontece meditativamente, graciosamente, cheio de luz.

Através dos toques do Osho, entendi que a iluminação chega à pessoa, a iluminação acontece. A pessoa não faz práticas específicas para isso. Não adianta querer apressar esse acontecer. Não é assim que ocorre. Mas é preciso percorrer um caminho e não se pode perder a naturalidade e a espontaneidade. E na maior parte das vezes essa naturalidade e espontaneidade ainda têm que ser resgatadas, pois foram sufocadas ao longo de nossa vida. E tem muito mais coisas a serem resgatadas: a nossa alegria, o nosso prazer, a nossa sensitividade... Então eu entendo que esse é um caminhar onde cada passo é criado a cada momento, onde o cuidado tem que estar sempre presente, onde a sintonia com o nosso centro é fundamental para que possamos responder a cada situação a partir desse centro mais interno e mais puro e não a partir de nosso ego, não a partir de nossos condicionamentos. É uma longa caminhada onde a prática regular de meditação é fundamental, senão a gente escorrega e cai na mente, cai no ego, cai na programação e perde essa sintonia com nosso centro. Este é o ponto onde eu sinto que me encontro hoje, buscando essa regularidade na meditação, buscando trazer consciência para cada ato, procurando estar presente em cada momento. E estar presente não é estar com a mente presente, analisando e acompanhando e registrando cada fato. É estar conectado com o nosso centro mais interno a cada momento, a cada agir, a cada falar, a cada fazer.

Entendi através das leituras do Osho que a iluminação chega à pessoa quando ela está vulnerável, receptiva e aberta. E ele diz que a iluminação acontece num piscar de olhos. Mas para se chegar até esse ponto, o caminho tem que ser percorrido. E aí é aquela velha história: temos que praticar muitas técnicas de meditação, durante muitos anos, até descobrirmos a chave que abre a porta do silêncio e quietude interior, como disse no meu artigo acima citado. E, mais apropriadamente, como foi dito por Osho no texto do boletim deste mês de fevereiro:
"No meio da noite, você acordará, sentará na cama e simplesmente entrará em sua solitude. E isto é apenas uma questão de seguir repetindo. Na medida em que você vai se movendo para dentro e para fora, vai ficando mais fácil, o caminho se torna mais leve. Isso se torna tão fácil que a qualquer momento você simplesmente fecha os olhos e imediatamente alcança o centro, sem perder um átimo de segundo. Então, até na praça do mercado você pode estar só, no meio da multidão. E você sentirá uma certa alegria crescendo em você, uma certa canção surgindo em seu silêncio, uma certa fragrância que você nunca conheceu antes."

Eu suponho que, depois que a pessoa chega nesse ponto, trazendo cada vez mais a meditação para a sua vida, ela poderá dar mais um passo que é esse estado de vulnerabilidade, abertura e receptividade em que Osho diz que um clique acontece e a pessoa acorda.
Com certeza esse estado ainda não faz parte de minha experiência.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Cadê o fio da barba de Jesus?


Vó Ângela era uma matriarca típica. E ela tinha seus méritos. Aprendeu rapidamente a língua de sua nova terra e logo conseguiu trabalhar como professora de português. A morte do marido Pietro complicou um pouco sua vida, afinal haviam chegado da Itália, fazia pouco tempo, no final do século XIX com três filhos a tira-colo.

Mas vó Ângela não se fez de rogada e aceitou logo casar-se novamente com aquele que viemos a conhecer como padrinho Artur. Padrinho porque ele era muito vaidoso e não aceitava ser chamado do avô. Ele era austríaco, fugiu das várias guerras do império Austro-húngaro na segunda metade do século XIX e clandestinamente chegou ao Brasil, escondendo-se nas vizinhanças de Juiz de Fora. Casara-se com uma ex-escrava que lhe deu quatro filhos antes de morrer e deixá-lo viúvo. Padrinho Artur ostentava com orgulho a foto de Francisco José I, imperador da Áustria e rei da Hungria, casado com a mulher considerada mais bonita de seu tempo, Isabel da Baviera, conhecida na família com o nome de Sissi, que veio a ser vivida no cinema por Romy Schneider, um sucesso de bilheteria, nos anos 50.

Conta-se que antes de vir para o Brasil, durante a guerra da unificação italiana, quando a região de Veneza era disputada entre austríacos e italianos, um padre italiano bateu na porta da casa de vó Ângela pedindo para se esconder, pois estava sob a mira dos soldados. Na madrugada, o padre foi embora sem ao menos se despedir. De manhã encontraram uma caixinha esquecida pelo padre, dentro da qual havia um fio da barba de Jesus (!?).

É bom lembrar que no início dos tempos modernos, a igreja “vendia”, ou seja, concedia indulgência a quem comprasse relíquias sagradas. Conta-se que havia 19.000 pedaços de ossos sagrados à venda e que com os fragmentos da cruz de Cristo disponíveis seria possível construir uma esquadra como a de Cabral, com treze navios. Isso talvez explique como o fio da barba de Jesus chegou em Juiz de Fora numa caixinha da vó Ângela. Vó Ângela deixou o corpo antes de 1940 e com ela desapareceu a tal caixinha. Conta minha mãe, que só os mais velhos tiveram acesso ao tal conteúdo da caixa. Nada mais ela sabe dizer a respeito. Eu sempre fiquei me perguntando: será que existiu a tal caixinha?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Para se conhecer Osho


Na minha maneira de ver, existem quatro passos fundamentais para se conhecer a mensagem do Osho.
A gente começa lendo seus livros. Eu li o primeiro livro do Osho em 1982 e não parei mais.
Ele fala de questões delicadas e complexas sobre as quais sempre tivemos dificuldades de compreender quando lemos os textos de mestres do passado. Ele fala de maneira simples, clara e de fácil compreensão. E como todos temos a semente da sabedoria escondida em nós, ao vê-lo falar essa verdade surge logo uma ressonância dentro de nós. Por isso muita gente diz: “eu gosto do Osho porque ele fala exatamente as coisas que eu penso. Temos opiniões muito parecidas.” Não nos damos conta de que não se trata de uma verdade dele ou minha. A verdade é eterna e universal. É disso que ele nos fala. E ele fala de uma maneira tão poética que facilmente ficamos envolvidos.

Depois que ficamos “viciados” em ler Osho, descobrimos que ele não escreveu esses livros. Eles são transcrições de suas palestras. Eu quis então vê-lo falar, tive vontade de conhecer os vídeos com suas palestras. No meu começo, Osho ainda estava no corpo e eu fui até Puna para vê-lo pessoalmente. Não tinha como não ir. Senti o chamado de maneira irresistível. É claro que hoje as coisas são diferentes pois Osho não está no corpo. E além disso, nem todos sentem essa vontade de querer ver seus vídeos e ficam mesmo no nível mais intelectual e filosófico. Mas quando vemos o seu vídeo com o coração aberto, com a mente esvaziada, não há como não ficarmos fascinados com sua presença, seus gestos e seu olhar, que dizem muito mais que as palavras.

O terceiro passo, que é muito importante, costuma vir junto com as leituras ou com os vídeos. É quando descobrimos que o centro de sua mensagem é a meditação. Quando temos a sorte de viver numa cidade em que funciona um Centro de Meditação, então mergulhamos fundo na Dinâmica, na Kundalini, na Nataraj, na Nadabrahma e em várias outras técnicas por ele criadas. Lembro-me de como todas essas técnicas mexiam (e ainda mexem) comigo. Organizávamos grupos para ir a um sítio num final de semana e fazíamos, por nossa conta, maratonas de meditações. Em casa, os amigos se reuniam para meditar com uma freqüência que hoje não vejo ser tão comum.

A verdade, é que quando entramos na prática de meditações é que começamos a verdadeira aventura. Começamos a mergulhar em nosso espaço interior, um espaço até então não explorado. Ele é vazio e silencioso, mas com uma profundidade e uma paz que nos toma e deixa uma irresistível vontade de querer experimentar mais.
No começo é normal fazermos confusão e entendermos errado uma série de sensações e imagens que nos surgem. Mas Osho deixou-nos muitas orientações e esclarecimentos que facilitam o nosso caminho. Sempre gostei de recorrer ao “Meditação: Primeira e Última Liberdade” para ouvir do Osho as explicações sobre o que é de fato meditação e o que é viagem da minha mente.
As técnicas de meditação do Osho são ferramentas muito importantes para nós ocidentais e modernos. As velhas técnicas orientais dificilmente funcionam de fato para homem estressado e apressado de nossos dias. Podem até propiciar um relaxamento e servir de "refresco" no meio da confusão diária. Mas isso é muito pouco diante da grande revolução que a meditação pode propiciar na vida de um meditador.

Na minha experiência pessoal, eu pude perceber com a prolongada prática de meditações do Osho ao longo dos anos, que suas técnicas nos preparam para um dia descobrirmos aquilo que ele mesmo disse: que as técnicas são apenas técnicas e que a meditação é algo que está além das técnicas. E que um dia a gente encontra a chave que nos abre a porta do silêncio e quietude interior, sem qualquer técnica.
Um dia a gente começa a ter vislumbres reais do nosso centro mais interno, onde está a nossa fonte de sabedoria e discernimento e então podemos dizer que estamos dando o quarto passo para realmente conhecer Osho. Eu entendo que é nesse espaço de silêncio e paz, nesse vazio interno, nessa quietude, que realmente nos encontramos com Osho, nos encontramos conosco mesmo, nos encontramos com Deus.
O mergulho nesse espaço, cada vez mais fundo é o processo de autoconhecimento.
A jornada é longa, mas é uma bela jornada. É como perseguir o arco-iris num caminho cheio de aventuras e surpresas. Vale a pena. Na verdade, é a única coisa que vale a pena.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Bem-vindo Ano Novo!


Eu sempre acho e digo que essas coisas de ano novo, datas natalícias, dias disso e daquilo são bobagens. E acho mesmo. Mas devo admitir que para mim este ano de 2009 está começando com ares diferentes, com uma nova energia, nova disposição e um novo colorido.

Sinto que minha vida está diferente. Não tanto por fatores externos, mas sobretudo por uma atitude interna que brotou em mim de querer estar mais vivo, mais consciente, mais sintonizado com o que realmente quero a cada momento, com o que realmente estou sentindo lá bem no fundo. E junto com isso veio uma não-disposição a fazer concessões, a contemporizar. Sinto que estou abrindo as portas para a expansão e realização de meu potencial, de minha vontade, de minha criatividade, de minha liberdade enfim.

E sinto que isso tudo veio com o ano novo.
E parece que ele veio forte mesmo. Primeiro queimou o HD de meu computador e me pôs duas semanas debruçado em cima de pen-drives e velhos arquivos copiados em CDs e notebook, tentando recuperar o máximo possível de minhas ferramentas de trabalho. Perdi o material preparado para o boletim de janeiro que não saiu, perdi várias coisas, mas não perdi a vontade e o gás de querer refazer tudo, e de aproveitar para refazer de uma maneira melhor, de aproveitar e repensar a estrutura do site do Osho Brasil, criar novas seções, tentar torná-lo mais leve e agradável de ser lido. E estou gostando do que estou criando.

Devo confessar que a perda do HD com todo o trabalho nele arquivado foi um choque. Enquanto minha CPU ficou no conserto, para instalar novo HD zerado, passei mais que um dia sozinho, sem falar com ninguém e sem fazer absolutamente nada. Fiquei parado, sem entender o que estava acontecendo e sem querer entender.

Mas foi apenas isso. A partir daí começou forte o meu processo de recuperação, não só do HD, mas principalmente de meu pique de querer e fazer, de vislumbrar possibilidades e realizá-las. E nesse pique, também veio uma clareza maior quanto à realização de eventos com base na visão do Osho. Algumas parcerias surgiram neste início de ano, incluindo um belo espaço natural onde esses trabalhos serão oferecidos e pessoas com quem poderei compartilhar atuações. No site do Osho Brasil, a galeria de fotos pode ser acessada através do seguinte endereço www.oshobrasil.com.br/andorinhas.htm

Bem-vindo 2009!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O Caminho com Osho - II

Perguntaram-me: como é possível ter Osho como referência, se ele próprio nos diz que não quer seguidores?

De fato não é tão simples entender os toques do Osho.
Para mim, o seu grande toque, talvez o maior de todos, é o de que nós temos que encontrar nosso próprio mestre interior. E o caminho para esse encontro é a meditação.
Mas como meditação é estado de não-mente, fica muito difícil falar sobre isso, utilizando palavras.
É essa exatamente uma das grandes contribuições do Osho: ter conseguido expressar em palavras muitas coisas que a gente não consegue dizer.
Por isso ele muitas vezes parece contraditório e até incoerente. E de fato é, pois ele nos fala sobre temas que não estão sob o domínio da lógica.
Por isso surgem os mal-entendidos a respeito da mensagem do Osho. Ele arriscou falar sobre o que não se fala.

Se a minha busca é pelo meu mestre interior, então a minha busca não é por Buda, nem por Cristo nem por Osho.
Então, eu não tenho que seguir Buda, nem Cristo nem Osho. Eu tenho que seguir o meu mestre interior, o centro de sabedoria que reside dentro do meu ser.
Todos nós guardamos no nosso centro mais profundo, essa grande preciosidade, esse mestre interior que é a fonte de nosso discernimento, de nossa sabedoria, de nosso amor em sua forma pura, de nossa compreensão...

Mas a sociedade nos treinou desde cedo para sufocarmos essa fonte interna de sabedoria e verdade, para nos moldarmos aos seus padrões, incluindo a moralidade, as crenças religiosas, as ideologias políticas, e uma série de conceitos e condutas que nos propiciam respeitabilidade e prestígio aos olhos dos outros.
É nesse estado que nos encontramos. Andamos pelas ruas, repletos de pensamentos, dúvidas, convicções, sonhos e ilusões, conceitos de certo e errado, opiniões, preocupações, racionalizações, e também carregamos raivas, medos, ressentimentos, invejas, frustrações, que fomos acumulando ao longo da vida.

Como dar o salto? Como nos livrarmos desse estado ao qual fomos condicionados e alcançarmos uma sintonia com o estado de serenidade, relaxamento e discernimento que repousa escondido dentro de nós? É uma tarefa difícil, sobretudo porque este salto tem que ser dado por nossa própria conta e risco e a sintonia com nosso centro mais profundo só acontece de maneira relaxada, espontânea e natural. O desafio é grande, a responsabilidade é totalmente individual, mas cada passo nessa busca já é uma conquista. Cada nó que eu desato já amplia significativamente a minha capacidade de respirar mais livremente. Isso é um grande estímulo.

Mas essa não é uma questão que aflige a grande maioria da população. Essa é uma questão que diz respeito a um pequeno grupo: somente àquelas pessoas que em algum momento da vida começaram a se questionar sobre o sentido dessa própria vida, do cosmos, da eternidade. E para alguns poucos, esses questionamentos se tornaram o foco principal, o sentido da vida. Entendo que este é o caso de todos nós que chegamos até a mensagem do Osho. Não foi à toa que seus livros nos tocaram e sensibilizaram. Para nós, essa questão do salto é relevante.

Seria muito mais fácil para nós, buscadores, se houvesse um roteiro a ser seguido, um manual com dicas e atalhos. Mas não é assim que se chega a algum lugar, não é assim que se dá o salto quântico. Por isso, Osho não criou um sistema de crenças e rituais que acabariam se tornando substitutos àqueles que nos foram impostos pela sociedade e suas instituições. Por isso, ele não deixou sucessores, não organizou uma religião, não deixou Dez Mandamentos. Ele simplesmente nos convidou, nos estimulou, nos seduziu, para que encontrássemos nossa própria religiosidade, para que respeitássemos nosso corpo como o único templo, e resgatássemos o contato com o nosso centro interior, que é a nossa fagulha divina.

Osho, tendo alcançado a compreensão maior que é o estado de iluminação, simplesmente compartilha conosco sua visão, sua abordagem da vida, de maneira que possamos, através dele, perceber que aquele estado búdico que ele realizou é possível para cada um de nós.

Para nós buscadores, no estado em que nos encontramos, Osho representa um presente da existência. As suas palestras, os seus toque, transcritos em livros são preciosidades para nós. No estado em que nos encontramos, ainda precisamos ouvir as suas chamadas para abrirmos os olhos, para abrirmos nossas percepções e nossa compreensão, para mergulharmos nas práticas de meditação. Mas ele faz questão de estar sempre insistindo no fato de que cabe a cada um de nós aguçar o nosso observador interno e que só assim conseguiremos acessar nossa fonte interna de lucidez e discernimento, e também conhecer a abertura e receptividade mais sutil que nos permitirá saborear o verdadeiro perfume das flores, o esplendor mais profundo de um céu estrelado numa real dissolução harmônica com o cosmos.

Por isso Osho não é um guru, ele não quer nos conduzir, ele não nos apresenta nenhum mapa, nenhum roteiro, nenhum atalho para chegarmos a algum lugar. Como ele mesmo diz, ele é apenas um convite, ele é um desafio, ele é um empurrão para nos encorajar a darmos o nosso salto, por nossa própria iniciativa e responsabilidade. Eu mesmo estava em Puna e o ouvi dizer: “eu estou empurrando vocês pela janela. Se vocês abrirem as asas e voarem pelo céu, o mérito é de vocês. Se vocês caírem e se afundarem na lama, o problema é de vocês. Eu estou apenas lhes dando um empurrão e dizendo que existe o céu no alto e a lama em baixo.” O desafio é individual. A responsabilidade é pessoal.

sábado, 6 de dezembro de 2008

A vida começa aos 60



É claro que, nesta presente encarnação, a vida começa a ser contada a partir de nosso nascimento. A gente nem se lembra mais, mas deve ter sido grande o impacto que tivemos quando captamos as primeiras impressões do mundo externo, as sensações táteis, os sons, as cores... Pôxa! Deve ter sido algo realmente fantástico, embora na época não tivéssemos ainda desenvolvido certos sensores , ou pelo menos eles ainda não estavam articulados sob o comando de uma central que processasse tudo conscientemente. E, mesmo depois, enquanto os primeiros anos avançavam, quantas descobertas fomos acumulando... Os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras frases, os primeiros quebra-cabeças, as primeiras descobertas...

Quando eu estava próximo de completar vinte anos de idade, também tive uma sensação muito forte de que, agora sim, a vida estava começando para mim. Eu me lancei cedo numa carreira profissional e logo senti o gostinho de ter meu próprio dinheiro, de poder ter um fusquinha azul claro, de comprar todos os discos que sonhei ter, todos os João Gilberto, todas as Nara Leão, os Tamba Trio e todas as Elis. E também aqueles Duke Ellington, os Dizzy Gillespie e as Billy Holiday. E os livros? Sartre, Marx, Herman Hesse, Vinicius, Drumond... Sob certo sentido eu me sentia dono do mundo, pelo menos do “meu” mundo que eu estava construindo. Já podia pensar em constituir uma nova família, construir um patrimônio... Eu sentia que estava tomando as rédeas de meu destino e escrevendo a minha história. Quanta ousadia, quantos riscos, quantos medos...

Passados, porém, mais vinte anos, eu enfrentava novamente um período de grandes mudanças. Agora, eu olhava para trás e tinha uma visão de toda a vida que eu havia construído; podia ver e sentir o preço que tinha pago, tostão por tostão, por toda aquela estrutura montada. E começava a desconfiar - chegava mesmo a perceber - que a vida poderia ter tido um significado mais profundo, uma intensidade maior, um colorido mais vivo. Eu estava com quarenta anos e consegui chegar a uma compreensão de que eu tinha o direito e o poder de proclamar a minha liberdade. Vivi então o tempo da demolição, o tempo de desmontar, se não tudo, pelo menos muita coisa. Tempo de descobrir a quantidade de fardo que carregava desnecessariamente e jogar fora sem pensar duas vezes. Tempo de novas viagens para fora e para dentro. Tempo de experimentar os primeiros passos no desconhecido mundo do autoconhecimento. Quantas descobertas, quantos saltos, quantos novos experimentos em todos os níveis... Era o tempo de reaprender a andar, reaprender a sentir, a brincar, a dançar e a cantar. Começava a construir uma nova vida, com um entendimento mais abrangente e mais profundo, acreditando em novos sonhos e ideais de uma possível vida de paz e harmonia com o cosmos.

Mas eis que agora eu paro e me deparo diante de um espelho e descubro que os anos continuaram passando e eu cheguei aos sessenta. E quando eu digo que paro e me deparo diante do espelho, eu quero dizer muitas outras coisas além da simples constatação quantitativa do tempo passado. Há também a constatação qualitativa, há a intensidade, a diversidade e a profundidade. E mais que tudo isso, há uma compreensão que sinto chegar naturalmente, sem qualquer esforço de minha parte. E quando paro, eu me deparo diante de todos os sonhos, de todos os ideais e de todos os projetos, os realizados e os abortados, desde a infância, durante a mocidade e naqueles tempos ditos mais maduros. Por vezes, eu paro e apenas paro. Outras vezes eu paro internamente e continuo andando, mas o andar já se torna um passear, uma contemplação ambulante das ruas, das pessoas, dos carros, dos jardins, dos pássaros, das cores e dos sons. No movimento dos outros eu vejo todos os movimentos que eu mesmo fiz, na luta contra obstáculos, na proclamação dos ideais, na busca da realização dos sonhos. Quando me deparo diante do espelho que é o meu próximo mais próximo, eu vejo tudo em mim, numa dimensão passada. E paro. E por vezes, apenas paro. Descubro pela primeira vez vivencialmente a diferença entre nadar e flutuar com a vida. Intelectualmente eu já sabia disso e de tudo o mais. Mas agora, quando paro, eu consigo perceber que só tenho disposição para flutuar, que já não tenho vontade de nadar, que o nadar já não faz mais sentido. E quando eu permaneço no flutuar, vejo que nada faço, que permaneço parado e as coisas acontecem naturalmente. Talvez “parado” não seja a palavra certa. E não é. É mais um “relaxado”, sem expectativas, ou poucas. Um deixar as coisas acontecerem por si mesmas e observar.
Não parei de nadar ainda. Nado, e muitas vezes só pela curtição do nadar, sem mesmo olhar para onde. Mas, sobretudo, os sessenta anos têm me trazido muito mais facilidade para ver e entender que nadando eu não chego a lugar algum. E também que, se eu me permito flutuar, a vida me leva para onde eu devo ir, para onde faz sentido eu estar.
O fazer não se esgotou, mas agora já começa a querer assumir feições de uma brincadeira, de um relaxamento, de uma curtição, como se ele estivesse procurando descobrir o prazer de cada movimento e com um cuidado de escolher o passo que está mais em harmonia com o todo – interno e externo. Sim, parece mesmo que a vida está começando agora, aos sessenta. Pelo menos para mim.