domingo, 26 de fevereiro de 2017

Estar no mundo sem ser do mundo

Há poucos dias recebi uma mensagem carinhosa de uma amiga querida , que talvez esteja lendo este post. Entre outras coisas, ela me dizia: “quando conheci você, eu o achava carrancudo (rs). Com o passar dos anos vamos vendo tantas coisas (rs). Gosto muito de você.”
Eu lhe respondi: “Você não estava errada. Eu era meio carrancudo mesmo. Precisei de mais uns anos depois do Osho Khalid para caírem umas fichas e me relaxar.”
Há cerca de 30 anos eu recebi uma mensagem do Osho, e a uma pergunta que eu lhe dirigi, ele me respondeu: “Não seja um missionário. Seja a mensagem.”
E durante muitos e muitos anos, sem ao menos perceber, eu segui sendo uma espécie de missionário. Não havia captado a mensagem.
Eu sempre fui um “fazedor” e aprendi com meu mestre que não tinha que brigar com isso, pois esse era o meu “jeitão”, fazia parte do tipo de personalidade que escolhi ser entre as várias opções que me foram dadas ao longo do meu crescimento. A questão não era o “fazer”, mas sim o “como fazer”. Confesso que me esforcei muito em tentar fazer as coisas meditativamente. Anos a fio fazendo Dinâmica, Kundalini, Nadabrahma e tudo o mais. Sem perceber que esse “como fazer” não viria através do esforço.
Grupos e mais grupos de terapia me ajudaram demasiadamente a ser quem hoje sou. Mas foi um processo difícil tal como tirar água na pedra. Foi bem assim. E depois de algum tempo uma filete de água começou a brotar na pedreira.
Abracei de corpo e alma a comunidade dos companheiros de viagem. Muitas belas amizades floresceram e que guardo com carinho no coração até hoje. Mas eu sempre queria “organizar as coisas”.
Eu trazia comigo o espírito de organização que absorvi como bancário do Banco do Brasil e um espírito de luta que aprendi na minha militância politico-estudantil.
Desde a minha primeira ida a Puna em 1987 eu já quis “entender” como funcionava a comuna, como poderia ser um distribuidor dos livros e CDs, como era a “organização”, quem era quem. E voltei organizando e coordenando diversos centros de meditação, integrando o grupo que editava o jornal Osho Times, tornando-me agente da Osho Internacional junto às editoras nacionais que publicavam Osho, criando por sugestão de Puna o Instituto Osho Brasil.
E assim eu fui “fazendo, fazendo e fazendo”. Sempre com a “língua pra fora”, e carrancudo, como diria minha amiga querida.
Certa vez cheguei em Puna exausto. Estava bem esgotado após desenvolver e implantar um amplo projeto de seminários no Banco do Brasil para melhoria do atendimento que atingiu mais de 50 mil funcionários, no qual incluí vários textos seletos do Osho.
Precisava de uma boa massagem e, ao entrar na sala, a terapeuta simplesmente pediu que eu sentasse e contasse o que estava acontecendo comigo. Após, orgulhosamente relatar todo o meu feito, ela me disse: “Osho não está lhe dizendo para fazer isso ou aquilo. Ele está lhe dizendo apenas para ser feliz. Só isso: seja feliz”. Putz! Que ducha de água fria. Eu nem precisei, nem ela me deu a tal massagem. Eu desmontei ali mesmo.
E assim, fui aprendendo passo a passo que a questão não é a meta, mas o caminhar.

Mas a vida é mestra e as curvas e obstáculos do caminho muitas vezes nos ajudam a abrir os olhos e ver coisas até então ocultas, ainda que estejam ali, diante de nossos olhos.
Foi com muita relutância que retornei à minha cidade natal há cerca de 10 anos.
Todos os fantasmas e sombras do passado estavam a postos atrás de cada esquina, atrás de cada pilastra. Eu tive que olhar um a um nos olhos e, para minha surpresa, todos foram se dissolvendo, um a um. Uns mais rápidos e outros mais demorados, mas todos se dissolveram.
E aqui, distante fisicamente da minha tribo de origem, da maioria dos meus velhos e queridos companheiros de viagem eu pude me dar conta de algo que já tinha lido (e traduzido) do Osho anos atrás:
“Essa foi a coisa mais infeliz no passado: discípulos organizaram-se, relacionando-se, e todos eles eram ignorantes. E pessoas ignorantes só conseguem criar mais chateação no mundo do qualquer outra coisa. Todas as religiões têm feito exatamente isso.
Nós já temos sofrido demais devido ao relacionamento direto de discípulos entre si,  criando religiões, seitas, cultos, e depois brigando. Eles não conseguem fazer nada mais.
Pelo menos comigo, lembre-se disso, apenas uma 'amistosidade' líquida, não uma amizade sólida, é suficiente e muito mais bela, sem qualquer possibilidade de causar danos à humanidade no futuro."

Comecei então uma nova etapa em meu processo pessoal de crescimento: Aprender a ser só, ou como diria o Gilberto Gil, aprender a só ser.
Foi o empurrão que eu precisava para parar, relaxar e deixar as fichas caírem, uma a uma.
Eu, sozinho, perambulando pelas ruas, um desconhecido na multidão, sem um centro de meditação para coordenar, sem uma comunidade de amigos para com eles morar, sem uma auto imagem a preservar e exibir... Pouco a pouco fui (meu ego foi) me reduzindo a uma pessoa comum, a um mero transeunte no meio de outros milhares, parando numa padaria para tomar um cafezinho e saborear um pão de queijo como qualquer habitante desta cidade. Nada especial. Eu já não era aquele sannyasin que se “achava” um guardião da mensagem do Osho, aquele que tinha que traduzir mensalmente um novo texto do Osho para publicar no site do Instituto, já não tinha que editar mensalmente o boletim/revista on-line fazendo a conexão nacional dos sannyasins. E pouco a pouco fui deixando uma série de papéis que havia assumido, fui cada vez mais me desnudando. Meu foco foi deixando de ser as grandes coisas, os grandes projetos e comecei a me conectar com as pequenas coisas reais, com os pequenos detalhes da vida, com minhas sensações internas, meus sentimentos mais puros, sem o filtro da mente. Olhar com o coração, ver as pessoas, as árvores, os cães que passam nas ruas.
Me vieram então tantas citações do Osho, muitas delas eu havia lido e repetido feito um papagaio. Numa dela ele dizia:
“A palavra ‘inspiração’ é perigosa.
Primeiro é inspiração, depois se torna seguimento, depois se torna imitação – e você acaba sendo uma cópia carbono. Não há necessidade alguma de ser inspirado por alguém. E não é apenas não ser necessário, é perigoso também. Apenas observando, eu tenho visto... cada indivíduo é único. Ele não pode seguir um outro alguém.
Ele pode tentar – milhões tem tentado por milhares de anos. Milhões são cristãos, milhões são hindus, milhões são budistas. O que eles estão fazendo? A inspiração de Goutama Buda fez milhões de pessoas budistas e agora eles estão tentando seguir seus passos. E eles não estão chegando a lugar algum; eles não conseguem.
Você não é um Goutama Buda e o rastro dele não se ajusta a você, nem os sapatos dele servem em você, você terá que encontrar o tamanho exato de sapato que lhe sirva.
A inspiração tem sido um infortúnio, não uma benção.
Assim, por favor, não se inspire em mim, caso contrário você será apenas uma cópia carbono, você não terá a sua autêntica e original face. Você será um hipócrita: você dirá uma coisa e fará outra. Você mostrará a sua face em situações diferentes com máscaras diferentes, e aos poucos você se esquecerá qual é a sua face verdadeira; são tantas as máscaras...”

Foi aí que comecei meu processo de independência do Osho. Como ele sempre disse que não era muleta nem guarda-chuva de ninguém, eu comecei meu processo de jogar fora a muleta e o guarda-chuva que eu vinha carregando. E simultaneamente fui aprofundando meu processo pessoal de presença, de estar presente aqui e agora, de me desligar do processo mental e deixar fluir, pouco a pouco, as minhas próprias percepções, as minhas puras sensações, deixando que os sentimentos brotassem, os insights acontecessem. Me ajudou muito nesse processo as minhas idas a Ibitipoca-MG, na serra da Mantiqueira, onde minha companheira Nirava tem uma aconchegante casa e um belo terreno de apenas 1.200m2, mas o suficiente para eu aprofundar uma linda relação com a terra. A criação de um jardim, com toda a sensibilidade estética que ele envolve, com toda a delicadeza necessária no trato com as plantas e flores, com o estudo e a compreensão de como funciona o solo, a recuperação do solo, a escolha das plantas mais adaptáveis aqui e ali. E depois, a formação do pomar, o respeito às árvores nativas pré-existentes, as plantinhas nativas cheias de flores delicadas. E num terceiro momento, a horta orgânica, com a imensa satisfação de colher a couve, o alface, o milho, o tomate, a abobrinha e tudo mais.
E no meio de tudo isso, o silêncio das montanhas, quebrado pelo maravilhoso canto dos pássaros, os mais variados. De repente, surge numa árvore um João-Bobo e a gente fica hipnotizado. De outra feita foi uma saíra-sete-cores que nos deixou de boca aberta. Aí surge uma seriema que resolveu nos visitar sem avisar.
E nesse ambiente, o relaxamento acontece, os insights brotam do nada, e a meditação acontece sem qualquer técnica especial.
Mas corro um sério risco de me tornar um escapista. Lembro-me mais uma vez do Osho nos alertando que é fácil ser um meditador nas montanhas; o difícil é ser um meditador na praça do mercado.
Me veio então outro texto primoroso dele:
“(...) Eu sempre quis que o meu povo ficasse no mundo, vindo a mim ocasionalmente, ficando comigo, refrigerando-se, depois voltando para o mundo, porque o mundo tem que ser mudado. Nós não somos aqueles que renunciam ao mundo.
Todas a religiões andaram ensinando: ‘Renunciem ao mundo.’
 

Eu lhes ensino transformem o mundo. (...)
Mas o mundo está onde está o trabalho. Isto aqui é uma escola de mistério. Nós não somos os renunciadores, nós somos os revolucionários. 
Queremos mudar o mundo todo
 

E, ao mudar o mundo, vocês mudarão a si mesmos. Vocês não podem mudar nada mais, a menos que passem através da mudança simultaneamente.

Então me vem essa conexão com o mundo. E eu abro os olhos para ver o mundo dos homens. Para ver essa realidade mais próxima que me cerca, esse nosso Brasil dos brasileiros. E, convenhamos, o cenário não está nada agradável. Todos os dias somos acordados com notícias de novas denúncias de corrupção, de violência, de muita coisa feia que dói os olhos e os ouvidos.
Então, surge o grande desafio: como estar no mundo? É claro que tem a grande máxima: “estar no mundo, sem ser do mundo”. Mas a máxima começa exatamente com o “estar no mundo”. E é claro que cada um tem suas ferramentas, seus instrumentos para ver e se situar nesse mundo.
Minha formação foi em História. Fiz o curso de História, lecionei no ensino médio durante 20 anos, paralelamente ao meu trabalho como bancário. Aliás, ensinar História era o meu grande barato e eu gostava de estudar História, entender o desenrolar do processo histórico, as relações com as mudanças econômicas, a evolução das estruturas de poder, os movimentos populares clamando por igualdade e justiça ao longo dos séculos. Tudo isso deu uma bagagem enorme para minha maneira de ver tudo o que se passa na vida nacional hoje.
Além disso, ainda na minha adolescência, eu participei de um movimento cristão, que abriu muito minha consciência a respeito das injustiças sociais, abriu muito meu coração, para me sentir compassivo e solidário para com todos os meus semelhantes que sofrem as consequências dessas injustiças.
Então, da mesma forma que eu estou conectado à natureza, à terra, às plantas, aos pássaros, aos animais em geral, eu também estou conectado ao mundo dos homens. Da mesma forma que eu quero ver um vídeo do Ernst Gotsch com sua visão profunda e harmônica da Agrofloresta, da mesma forma eu me emociono ao ouvir um Emilio Santiago interpretando Eu Sei que Vou te Amar; da mesma forma que eu divulgo um vídeo que denuncia maus tratos a animais, eu divulgo a condenação da fala hipócrita de um senador que está sendo denunciado por receber propina de milhões de reais.
Entendo que o meu estar no mundo, pressupõe assumir posturas, tomar atitudes com base na compreensão que tenho de tudo o que está me cercando.
Defendo uma série de bandeiras que o espaço aqui é pequeno para enumerar todas. Basicamente defendo direito à liberdade, a uma vida saudável e segura para todos, moradia, educação de qualidade, oportunidades iguais a todos, sem distinção de classe social, de raça, ou do que quer que seja. Sou a favor das bandeiras de defesa ambiental, de defesa das minorias, de defesa dos animais.
Não tenho partido político, mas sou capaz de analisar as bandeiras defendidas pelos diversos partidos e políticos.
Acompanho noticiário político desde meus 15 anos de idade. Hoje estou às portas dos 70 e sei perfeitamente que a corrupção é um dos maiores, senão o maior, dos problemas brasileiros. E não é de hoje.
Mas também sei da existência de todo o poder econômico oculto atrás dos noticiários dos jornais e telejornais, oculto atrás do financiamento dos políticos e seus partidos, tudo em troca da defesa de seus interesses. E esses interesses não têm qualquer compromisso com o bem estar das populações, com aquelas bandeiras que eu citei atrás. Pelo contrário, os interesses dos grandes grupos econômicos seguem noutra direção.
Assim, num momento como este vivido atualmente pelo nosso país, pelo nosso povo, eu sinto que o meu “estar no mundo” significa literalmente estar no mundo. Este não é o momento para “fugir” dos problemas do mundo.
E quanto ao meu “sem ser do mundo”, é o meu desafio pessoal. E enquanto tal, cabe a mim, exclusivamente a mim. É o que Osho diz: “E, ao mudar o mundo, vocês mudarão a si mesmos. Vocês não podem mudar nada mais, a menos que passem através da mudança simultaneamente.
A minha denúncia de uma manobra política para defender interesses ocultos, não pode ser fruto de um ativismo cego e inconsciente. A minha denúncia é a manifestação de minha solidariedade humana, de meu comprometimento compassivo com um povo maltratado e que, inconscientemente é manipulado pelo interesse dos poderosos.
Da mesma forma que sou contra o uso dos agrotóxicos nas plantações, sou contra o uso do poder econômico para manipular a população, como sou contra muitas coisas mais. E nessa população manipulada incluo não só os menos favorecidos social e economicamente, mas aqueles que com um mínimo de instrução e condição material, não têm o discernimento necessário e suficiente para saber que estão sendo massas de manobra.
A cada passo, a cada denúncia, a cada compartilhamento de petições, cabe a mim dar um passo atrás e ouvir meu próprio coração, minha fonte interna de sabedoria, ouvir meu mestre interior. A meditação é o meu canal.
Esse é o meu desafio.

E é muito oportuno lembrar Bertrand Russel, numa entrevista que compartilhei há poucos dias nas redes sociais, “Nesse mundo que está ficando cada vez mais conectado, nós temos que aprender a tolerar uns aos outros, temos que aprender a aceitar o fato de que algumas pessoas dizem coisas que não gostamos. Só assim nós poderemos viver juntos, só dessa forma.”

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Levantando algumas bandeiras

Oração significa uma conversa, uma súplica, um agradecimento ou um ato de louvor diante de um ser, o qual está além da capacidade humana conhecer, que pode ser Deus, um Santo ou uma entidade com poderes sobrenaturais.

Já a meditação acontece quando a mente deixa de lado toda a sua tagarelice interna sem sentido, quando o fluxo de pensamentos para, e, de repente, naquele silêncio você tem a experiência de simplesmente estar presente; uma presença da qual você estava inconsciente, mas que sempre esteve ali. É a presença de sua consciência, de seu ser.

Enquanto a oração leva a uma conexão com algo externo (um Deus, uma Entidade), a meditação leva a uma conexão com o seu ser mais interno. Na oração a mente conversa, na meditação a mente se aquieta. A oração leva você para fora enquanto a meditação traz você para dentro. A oração pressupõe a crença na existência de uma entidade divina externa, a meditação não depende de qualquer crença em divindades externas.

Seria a meditação uma fuga do mundo?

Krishnamurti nos diz “Meditação não é uma fuga do mundo; Não é atividade egocêntrica, isolante, antes, porém, a compreensão do mundo e seus usos.”
Mas ele também diz, “Pouco tem o mundo para oferecer, além de alimento, roupa e moradia, e do prazer e do seu conjunto de aflições. A meditação é um movimento para fora deste mundo; pois temos de ficar fora dele. Aí então é que o mundo tem significação e é constante a beleza do céu e da terra. Então o amor não é prazer.”

Em seu “Discurso do Adeus”(João 17), Jesus se volta para o céu e fala ao Pai, se referindo aos discípulos. Ele diz E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo” (João, 17-11) e na sequência diz Não são do mundo, como eu do mundo não sou.”(João, 17-16). Resumindo, ele diz que os discípulos estão no mundo, mas não são do mundo.

Osho, que sempre priorizou a meditação, responde a uma pergunta, dizendo, Estar no mundo significa apenas que você estará fazendo um trabalho, que estará ganhando o seu pão, que estará vivendo com pessoas que não têm a mesma mente que você, que estará vivendo entre estrangeiros e naturalmente se sentirá um alienígena. Mas isso é algo pelo qual deve se alegrar. Eu não o mandei ao mundo para se perder. Eu o mandei ao mundo para permanecer você mesmo, apesar do mundo. E esse foi o significado da afirmação original: estar no mundo, mas não ser do mundo. Isso é tão fundamental que permanecerá inalterado.”

Como fica para mim, simples buscador, estar no mundo, sem me perder, permanecendo eu mesmo? E quem é esse “eu mesmo” que não pode ou não deve ser perdido?
Se eu ainda estou no mundo da mente (como suponho estar 99,9% das pessoas) eu leio tudo isso e, é claro, interpreto com o filtro dessa minha mente, carregada de conceitos e preconceitos, de crenças, de ideias e projeções, de interpretações.

Para seguir este meu raciocínio, vou citar Osho mais uma vez: Quando dizemos que o mundo é ilusão, maya, isso não significa que o mundo não exista. Ele existe, mas o modo como o vemos é que é uma ilusão. O que vemos não pode ser encontrado em lugar algum. Nós criamos um mundo em torno de nós mesmos, e cada um vive em seu próprio mundo. É por isso que há uma colisão; mundos colidem, o seu mundo e o meu.”

Será que eu compliquei as coisas, com mais essa citação?
Espero que não. Eu apenas quero fazer uma colocação que para mim é muito oportuna.
E tenho que ter humildade para reconhecer que posso estar totalmente iludido em minha maneira de ver mundo. Mas, neste exato momento, é como eu consigo vê-lo. E entendo e aceito que outras pessoas vejam esse mundo a partir de outras perspectivas. Estarão elas iludidas? Eu não tenha essa resposta. E até que elas exponham suas visões com a devida clareza e fundamentação, e eu as considere plausíveis, eu continuarei discordando de muitas delas, da mesma forma que elas poderão estar discordando de mim. E não vejo nenhum problema nisso.

Vou tentar me colocar de maneira mais clara.
Eu me vejo situado num mundo insano, num sistema que torna as pessoas insanas de tal modo que essa insanidade nem é detectada. O sistema é perverso, impõe uma permanente competição, uma corrida louca atrás de dinheiro e mais dinheiro, de mais poder e mais prestígio; impõe um consumismo desenfreado, uma valorização do supérfluo e do superficial. A busca incessante de lucros e mais lucros, faz com que nossa agricultura e nossa indústria de alimentos estejam mais voltadas para a dimensão negocial do que para a nutrição das pessoas. Estas pessoas, com a correria das cidades, alimentam-se mal, dormem mal, vivem estressadas, seguem hipnotizados pelos seus sonhos de consumo, relacionam-se mal, enfiam a cara nas drogas lícitas ou ilícitas, e o resultado é o aumento considerável na venda de ansiolíticos, antipsicóticos, relaxantes. A indústria farmacêutica agradece, mas isso é terrível.
Também vejo por trás de todo esse cenário, um jogo de poderosos grupos que dominam a situação global e cada vez mais se enriquecem e se tornam mais dominadores. São grupos internacionais do capital financeiro, da indústria bélica, da indústria farmacêutica, do agronegócio, das grandes mineradoras, das companhias de petróleo, como se fosse uma rede que se espalha, financia e controla os políticos, para defenderem seus interesses, e os meios de comunicação para manipularem as grandes massas populacionais como um rebanho. Eu vejo também uma distribuição de renda muito injusta, onde 1% possui tanto dinheiro quanto os 99% restantes da população mundial, num ambiente onde ainda imperam a discriminação e a exclusão social por razões raciais, sexuais, religiosas e etárias. Junto a isso, um crescimento da agressividade, intolerância e violência, não apenas nos ataques terroristas, mas nos simples comentários de redes sociais, revelando que as pessoas perderam o respeito pela dignidade, liberdade e individualidade alheias.

Mas vejo também nesse mesmo mundo a proliferação de estudos e trabalho de pessoas dedicadas a reverter todo esse processo e tornar esse mundo mais humano; vejo ainda organizações e indivíduos se empenhando na revitalização da natureza tão maltratada e desfigurada pela ganância capitalista; vejo o surgimento de políticas públicas para valorizar segmentos discriminados e menos favorecidos da sociedade; vejo movimentos que disseminam respeito à natureza, respeito aos seres humanos, respeito aos animais; vejo ações solidárias a menores abandonados, a vítimas de fenômenos naturais, vítimas de desastres ambientais provocados pela sede de lucros, vítimas de ataques terroristas, vítimas de guerras. E tudo isso tem um valor imenso.

Tudo isso compõe esse mundo em que estou. Com suas insanidades e suas virtudes.
Para mim, o desafio é: como estar nesse mundo, sem ser desse mundo e ao mesmo tempo não ficar cego diante de todo esse cenário?

Por um lado, eu estou buscando meu estado de presença, fazendo experimentos, estou buscando e vivenciando a minha felicidade e realização nos pequenos atos, no aqui e agora. Por outro lado, eu estou no mundo, nesse mundo que eu vejo. E, estando nesse mundo, busco permanecer eu mesmo, em sintonia com meu centro, com minha fonte de discernimento. Grande desafio, eu considero.
E esse mundo que eu vejo, repito, tenho que ter a humildade para admitir que é uma visão com o filtro da minha mente, carregada de conceitos e preconceitos, de crenças, de ideias e projeções, de interpretações. O que aumenta ainda mais o desafio.

Mas, eu tenho também a opção de me alienar e simplesmente ignorar tudo que ocorre ao meu redor. Posso mudar-me para as montanhas e viver com os pássaros e as plantas e evitar qualquer notícia desse mundo caótico.
Posso me comportar como certa pessoa que me bloqueou numa rede social por não aceitar que eu (que ele não conhece pessoalmente, mas que considera espiritual) possa postar conteúdos de política, uma vez que, segundo ele, todo político é corrupto e, toda essa humanidade é desprezível (Como assim!!!???).
Eu acho que seria bom se essa pessoa lesse o texto do Bertold Brecht, substituindo as palavras burro e imbecil, que são muito fortes: O Analfabeto Político.
“O pior analfabeto, é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha
Do aluguel, do sapato e do remédio
Depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que
Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil,
Que da sua ignorância nasce a prostituta,
O menor abandonado,
O assaltante e o pior de todos os bandidos
Que é o político vigarista,
Pilantra, o corrupto e o espoliador
Das empresas nacionais e multinacionais.”

A questão de não ser deste mundo implica questões de ordem subjetiva, de busca espiritual, de silêncio interior, do estado de presença, do aqui e agora.
A questão de estar neste mundo implica a compreensão do que é esse mundo e da trama que existe por trás de tudo que podemos apontar como caótico.
Nesse sentido, se surge um novo movimento na Grécia propondo uma alternativa a esse sistema dominado pelo capital que tudo explora, então eu quero compreender o que é essa nova proposta e quero acompanhar os passos desse movimento. Quero ver se ele é exequível ou não. Talvez esteja aí uma alternativa mais humana para este mundo.
Se um economista como Paul Singer dá uma palestra defendendo que a sociedade precisa da solidariedade para que as pessoas sejam mais felizes e vivam em paz... Eu quero buscar um texto dele sobre o assunto e compartilho com meus amigos. Acho muito legal que ele inclua o quesito felicidade no campo da economia.
Se o Sebastião Salgado apresenta um projeto para ajudar a recuperar o desastre ambiental que atinge o Rio Doce, com base numa experiência bem sucedida dele próprio na recuperação de nascentes e matas, eu quero aplaudir e divulgar, e não dou força à condenação de alguns de que ele teria se vendido à Vale e está apoiado pela Globo para amenizar a responsabilidade da mineradora. Se todos pensarem assim, nenhuma proposta construtiva poderá ser implementada. Eu acredito que existem pessoas interessadas em melhorar a vida do planeta. Quero conhecer e dar força a tudo que vejo como proposta positiva em todos os níveis e em todas as áreas.
Para mim, isso faz parte do “estar no mundo”. Mas eu cuido de não me envolver “de corpo e alma” em movimentos, partidos políticos, seitas. Eu não sou cego para acreditar nas promessas de campanha e sei perfeitamente que a grande maioria de nossos políticos são corruptos e oportunistas. Mas não deixo de acompanhar as propostas, as críticas, as opiniões a respeito de medidas políticas que afetam questões sociais, ambientais, culturais, econômicas. E compartilho tudo aquilo que sinto como benéfico para o planeta e para os seres humanos.

Particularmente nesse quesito – seres humanos – eu tenho procurado, cada vez mais, ser cuidadoso com as pessoas mais próximas e também comigo mesmo, com meu corpo, incluindo aí a alimentação, o sono, a meditação, os exercícios, etc. Busco ampliar esse meu cuidado a todos os seres vivos, à humanidade, aos animais e vegetais.
Para mim, não é possível buscar a espiritualidade, orando ou meditando, e não cuidar do próprio corpo, não cuidar das pessoas mais próximas, não cuidar da humanidade em geral. O difícil mesmo é quando a gente tem que encarar um político corrupto, um criminoso comum ou um terrorista e fazer um namastê (“O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em ti”), afinal, embora cada um tenha histórias de vida diferentes, programações diferentes, lá no fundo todo mundo tem essa fagulha divina.

Se nesse confuso cenário político nacional já não dá para se filiar a um partido ou ser um fiel seguidor de um líder, porque nunca se sabe o grau de comprometimento que este ou aquele assumiu com o financiamento de suas campanhas, ou mesmo qual seu envolvimento com este ou aquele ato de corrupção, eu prefiro seguir o meu caminho, identificando aqui e ali algumas bandeiras que entendo devam ser levantadas e compartilhadas, independentemente da cor partidária que possa trazer consigo. Gosto do movimento das mulheres pelos seus direitos, assim como dos direitos dos homoafetivos; dos movimentos em defesa da causa negra e dos indígenas; gosto das políticas que beneficiam os segmentos mais desfavorecidos da sociedade, como programas habitacionais, maiores oportunidades nas universidades, programas de atendimento médico; gosto do trabalhos de ONGs em defesa do meio ambiente, de proteção das espécies em extinção. Mais do que me comprometer com um partido ou um movimento político, eu tenho optado por apoiar, da forma que sinto serem possíveis para mim, essas bandeiras que tocam a minha alma humana.

“Parece que o homem existe para todos estes tipos de coisas - democracia, socialismo, fascismo, comunismo, Hinduísmo, Cristianismo, Budismo, Maometismo.
A realidade deveria ser que tudo isso existisse para o homem; e o que fosse contra o homem, não deveria de forma alguma existir.
Todo o passado da humanidade está cheio de ideologias estúpidas pelas quais os povos estiveram fazendo cruzadas, matando, assassinando, queimando pessoas vivas. Nos últimos três mil anos lutamos cinco mil guerras, como se a vida fosse para lutar e não para sermos criativos, não para desfrutarmos dos presentes da natureza.

Temos que abandonar toda esta insanidade.” OSHO

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Em paz comigo mesmo

Parece que algo novo teve início exatamente ali, quando eu estava começando a conceber o jardim lá em Ibitipoca.
Na verdade, nada estava se iniciando, pois na época eu já trazia comigo 66 anos de muitas experiências, muitas tentativas e erros e muitas informações, algumas processadas e testadas vivencialmente e incorporadas à minha compreensão do mundo, e outras tantas descartadas por se revelarem sem ressonância dentro de mim.
Mas algo novo teve início ali com o jardim de Ibitipoca.
Primeiro foi a minha entrega àquele verdadeiro ato de criação, procurando vislumbrar um jardim em cima daquele terreno irregular, muito arenoso e cheio de pedras, uma fina cobertura sobre um solo rochoso, com muitos entulhos que sobraram da construção da casa, além de valetas e muito mato.
E a partir desse primeiro passo, foram se sucedendo experiências cada vez mais fantásticas, desde a concepção do desenho à preparação do terreno para receber o jardim, o tratamento do solo, a escolha das mudas, o teste de plantio aqui e ali, a busca constante de uma harmonia visual e energética. Enfim, ao longo de vários meses, o jardim começou a tomar forma.
E paralelamente a todo esse processo começou a crescer dentro de mim uma ligação muito especial com a própria terra. Não seria exagero dizer que dentro de mim cresceu um amor por aquele terreno. Eu comecei a experimentar um prazer imenso ao tocar a terra, ao preparar uma cova para um novo plantio, ao misturar o esterco, ao arrancar ervas daninhas e pedregulhos. Eu enfiava a mão na terra com gosto, com muito gosto. E, de preferência eu colocava roupas velhas e surradas para ficar mais à vontade e poder sentar, me debruçar e até deitar sobre a terra nessa tarefa de formar o jardim.
E como se não bastasse, toda aquela área de Ibitipoca é repleta de pássaros, de cantos e cores variadas. E todo esse meu trabalho de jardinagem sempre foi acompanhado por essa plateia fiel: tico-ticos, canários, coleiros, saíras, maria preta, pintassilgo, beija-flor, e muitos, muitos outros.
Momentos mágicos eram aqueles em que eu, debruçado na terra, dissolvido naquela comunhão com o que sentia ser a própria “mãe-terra”, de repente era despertado por um canto especial. E eu me virava e contemplava aquele novo visitante que parecia estar me chamando e dizendo: eu estou aqui. Momentos em que eu me perguntava: o que mais é preciso para ser feliz?
E da experiência do jardim passei ao pomar no terreno ao lado. Um terreno ainda mais virgem no qual tive o cuidado de respeitar as árvores e arbustos mais originais, assim como o próprio mato e as plantinhas silvestres com suas mais variadas flores que se abrem em épocas distintas do ano. E teve início um outro processo, paralelo ao do jardim. Semelhante e ao mesmo tempo diferente. Enquanto no jardim, em apenas um mês eu já podia perceber se determinada planta se adaptava ou não àquele local, àquele solo, ao Sol ou à sombra, se ela iria florescer ou não, ali no terreno do pomar as coisas aconteciam diferentemente. Só para citar um exemplo, o primeiro pé de caqui que plantei, após um início promissor, cheio de folhas novas, de repente perdeu todas elas e por quase um ano permaneceu apenas aquele galho aparentemente seco até que, já sem esperanças, eu me decidira a plantar uma outra nova muda. Mas, para minha surpresa, de repente, novas folhas surgiram, novos ramos brotaram e aquele mesmo pé de caqui começou a tomar forma de um arbusto já adolescente, cheio de folhas e vida. E essa mesma experiência aconteceu também com a parreira de uva, com a graviola, com a acerola. Com as frutas do pomar aprendi muito na arte de observar, de esperar com paciência, de perseverar, de confiar e de entregar à existência.
Surpresas se sucediam, como aquele pé de tomate silvestre que surgiu ao lado de um pé de abacate, levando-me a lembrar do Gilberto Gil, em Refazenda – “enquanto o tempo não trouxer teu abacate, amanhecerá tomate e anoitecerá mamão”. E que delicias eram aqueles tomates na salada sempre bem preparada pela Nirava.
A verdade é que a existência cuida; e aquilo que é, é. As coisas são do jeito que são, acontecem do jeito que acontecem, e não muitas vezes do jeito que a gente quer, e mesmo quando a gente força a barra, o resultado costuma ficar meio estranho, parece que algo não fluiu normalmente, por isso resultou meio torto, meio capenga.
Aliás, essa nossa (minha e da Nirava) experiência de virmos regularmente a Ibitipoca nos finais de semana, eu sempre cuidando do jardim e do pomar e ela cuidando de suas criações artísticas e da casa, fez crescer em mim essa satisfação em cuidar das coisas mais simples que nos rodeiam. É claro que pela altitude de Ibitipoca e pelo ambiente mais rural que urbano, o ar ali é sempre bem puro, e as noites silenciosas favorecem um sono restaurador. Mas uma das coisas mais simples e mais básicas do cuidado com a gente é o preparo do alimento que consumimos. E acompanhando a Nirava, nisso que ela faz bem e com prazer, eu me decidi a mudar mais uma rotina na minha vida.
Eu, que em Juiz de Fora moro sozinho, e estava acostumado a frequentar restaurantes regularmente, resolvi assumir a cozinha de casa e preparar minhas próprias refeições.
E eu não tenho dúvida que essa nova função de cozinheiro nada mais foi do que uma sequência natural daquele primeiro passo na função de jardineiro. O cuidado com a terra, o cuidado com o corpo, tudo faz parte do cuidado com a natureza, tudo é uma só coisa.
E, da mesma forma, que no jardim e no pomar, o aprendizado continua sempre acontecendo também na cozinha e cada vez mais rico. Não abri mão da valiosa receita do arroz integral que me foi passada pelo bom amigo Sandey lá em Fortaleza e agreguei uma série de outras receitas culinárias. Aprendi as manhas do uso do alho e da cebola, dos mexidos e remexidos, dos refogados e dos ensopados, dos bolos e das tapiocas.
Em casa, passou a ser uma curtição essa minha nova função de “dono de casa”. Um duplo prazer: o fazer e o comer. E desapareceu até uma certa má vontade que antigamente eu sentia em lavar pratos e talheres. Agora, essas tarefas fluíam como parte de todo o processo gostoso da cozinha.
Mas, como disse, o aprendizado não para e a existência cuida de nos apresentar desafios e desafios. E foi assim, que por obra de um exame de sangue feito em hora imprópria e, que por isso resultou numa interpretação errada, eu achei que estava com certo problema de saúde. Esse foi o empurrão necessário para que eu recorresse a uma série de estudos que sempre estiveram disponíveis para mim, mas que nunca cuidei de levar adiante em minha própria vida. Por um lado eram estudos a respeito dos malefícios da farinha de trigo, dos laticínios, dos embutidos, etc.; por outro lado os benefícios do óleo de coco, do açafrão, da linhaça, do cloreto de magnésio, do coco, do abacate, do limão, da maçã, e por aí vai.
Tudo isso foi uma revolução na minha culinária. Mais sabor, mais saúde e mais disposição.
E o melhor da festa é que tudo isso contagiou a Nirava e, nessas questões, como em muitas outras, é sempre bom a gente estar juntos com prazer, cumplicidade e companheirismo.
E fechando o circulo, mais um passo está surgindo à frente: a antecipação para já de nosso projeto de horta orgânica em Ibitipoca. Anteriormente, pensávamos nesse projeto só para daqui a 1 ano e meio quando a Nirava se aposenta e iremos nos mudar de vez para lá. Achávamos difícil implementá-lo agora devido à nossa ausência durante os dias da semana. E muitas hortaliças necessitam de água diariamente ou quase. Mas estamos pensando agora numa alternativa com mangueiras flexíveis e rígidas, com conexões e furos que poderão ficar ligados permanentemente, possibilitando uma irrigação mesmo durante nossa ausência.
E eu já sinto prazer só em pensar em todo esse processo de preparação dos canteiros, da mistura de terras mais férteis, de esterco, de folhas secas, as separações entre os canteiros de maneira funcional e com a devida estética e limpeza, a localização estratégica perto da cozinha, a escolha das mudas... E o mais gostoso: saborear um alface, uma rúcula, uma cenoura, uma couve... tudo fresquinho, colhido na hora.
Em toda essa história eu só posso me sentir abençoado, me sentir agradecido pelo que a existência tem me proporcionado.
Quanta beleza nisso tudo. Viver o simples, curtir as pequenas coisas, estar atento ao que está aqui presente neste exato momento, ao que acontece agora, aqui.
Mas vivendo tudo isso, e sendo humano, não consigo deixar de olhar ao redor e ver toda essa insanidade espalhada no mundo, essa proliferação de ódio e violência, esse sistema perverso que só visa lucro a qualquer preço, sem respeito ao ser humano e à natureza.
Mas assumo que esse mundo é o mundo em que vivo. Sou tão humano como qualquer flagelado das guerras de tribos africanas, como qualquer menina estuprada na Índia, como qualquer imigrante ilegal na Europa, como qualquer magnata de Wall Street ou qualquer deputado corrupto de nosso país. Fazemos parte de uma só humanidade, com toda injustiça, toda violência, todo desrespeito que nela se alastra. E também com toda bondade, todo sorriso e toda esperança que nela encontramos.
Esse é o meu mundo. Quero sim, estar sempre atento ao que acontece nesse mundo, procurar sempre desvendar as cortinas que nos impedem ver as artimanhas dos grupos poderosos na política e nas finanças que tudo exploram inclusive os meios de informações para manipular as populações. Mas quero também estar atento às contribuições científicas que nos abrem novas oportunidades saudáveis de viver neste lindo planeta, saber das coisas bonitas que estão acontecendo.
E, acima de tudo, quero estar consciente de meu próprio processo pessoal o qual acontece nesse meu microcosmos, de minha alegria nas pequenas coisas. Quero buscar a lucidez para ver e entender as coisas, para alcançar a paciência, para exercitar com humildade e tolerância a aceitação das pessoas como elas são e dos acontecimentos como eles se apresentam. Ter a sabedoria para interferir nos processos somente na hora que for necessário e, se possível, da maneira mais adequada. Quero enfim estar em paz comigo mesmo.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

TAMBÉM ME CHAMO RONALDO E TAMBÉM SINTO VERGONHA

Eu entendo e respeito o direito das pessoas terem preferências políticas diferentes das minhas. Eu também tenho as minhas. Isso faz parte do jogo político dentro de uma democracia. É direito da maioria escolher o governante e promover a alternância de partido no poder quando sentir que seus anseios não estão sendo atendidos.
A democracia é uma conquista recente do Brasil e o Brasil somos todos nós. Somos nós que fomos às ruas lutar pelas “Diretas Já”, foi o povo que lutou contra uma ditadura que por vinte anos pisou nos nossos direitos de termos nossas preferências políticas e, entre outras coisas, tirou do povo o direito de alternância de poder.
Eu entendo e respeito essa moçada que hoje faz passeatas contra “tudo o que está aí”. Quem tem 30 anos hoje, não conheceu os “anos de chumbo”, não conheceu inflação de 82% ao mês (sim, ao mês, não é ao ano), não sabe o que é dificuldade para se ter um trabalho remunerado com carteira assinada.
E digo mais, quem tem 30 anos hoje, ainda era criança quando o nosso país estava endividado junto ao FMI e recebia frequentemente as humilhantes visitas de seus enviados que vinham nos ditar normas e cobrar providências. Quem tem 30 anos hoje não sabe que tivemos um tempo em que não havia esse poder e essa independência dos Procuradores e da Polícia Federal que vivem farejando toda e qualquer suspeita de corrupção e outros delitos. Há 30 anos nós tínhamos o que se chamava “Engavetador Geral da República”, porque nenhuma denúncia de corrupção neste país era investigada nem era divulgada pela mídia.
Quem tem mais de 30 anos, quem tem 40, 50 ou mais anos, sabe perfeitamente que neste nosso país sempre existiu corrupção e que a impunidade das autoridades era tida como “normal”. Infelizmente, nós ainda convivemos com esse tipo de político que manipula os votos de seus eleitores e se acha com direitos além das leis para se locupletar às custas de seu cargo, sem se dar conta que sua obrigação é servir ao povo e a ele prestar contas.
Mas se olharmos para nossa história temos que reconhecer que muitas conquistas foram alcançadas nos últimos anos, tanto do ponto de vista político, quanto social e econômico.
Entendo e respeito essa moçada de menos de 30 anos, porque ela não teve a experiência vivencial do que era esse país há tempos atrás. Ela conta apenas com as informações do Google, ela conta apenas com o “ouvi dizer” no Facebook. O Google e o Facebook colocam Brasil, Haiti e Japão num mesmo saco. E a nossa mídia completa comparando a rapidez com que o Japão foi reconstruído após o tsuname e como o Haiti ficou paralisado após o terremoto, ou como o Brasil demorou a fazer algo após as enchentes.
Existem muitos aspectos a serem considerados por trás dessas diferenças. Existe uma história diferente e existem diferenças culturais, estruturais que infelizmente são, muitas vezes, obstáculos à solução de problemas vividos pelo povo os quais requerem tratamento urgente e emergente. E junto com isso existe um grande agravante: os maus políticos que se espalham em todas as esferas: federal, estadual e municipal e que insistem na demagogia, no desvio de verbas, na manipulação dos votos.
Mas, quando essa moçada vai às ruas “contra tudo o que está aí”, ela se torna alvo preferencial dos “velhos” interesses que estiveram no poder quando ela era criança ou quando nem tinha nascido. É a velha direita que agora se assume como nova direita e que tem saudades da ditadura militar ou mesmo daqueles governos dominados pelas oligarquias regionais. Aqueles “bons tempos” em que viajar de avião era privilégio de uma elite, quando não se via nos aeroportos esses “Zé-povinhos” de bermutas e sandálias de dedo, aqueles “bons tempos” em que pobre e preto se “colocavam em seus devidos lugares”, e viviam sem reclamar de seus sub-empregos, de andar a pé, de não saber ler e escrever, e se contentavam com o futebol no fim de semana, com o carnaval, e com a proteção de um bom santo.
Essa raposa que agora se chama nova direita, essa eu não entendo nem respeito.
A democracia que estamos construindo é resultado da luta de nossos pais, nossos avós. As nossas instituições ainda estão cheias de falhas, nossa educação, nossa saúde e nossa segurança ainda deixam a desejar. E muito. Mas já contabilizam hoje um ganho significativo se compararmos com 30, 50, 100 anos atrás.
Eu sinto orgulho de estar vivendo este momento de crescimento e amadurecimento do nosso país nos mais diversos aspectos. Eu sou parte disso.
Eu não entendo e não respeito esse pessoal que quebra agências bancárias e de automóveis e não tem uma pauta de reivindicações, não tem uma liderança para discutir e exigir esse ou aquele projeto para solucionar os problemas denunciados. Eu não entendo e não respeito esse pessoal que incendeia ônibus e quebra orelhões e postes distorcendo o sentido dos movimentos de rua que queriam apenas dizer que estava “contra tudo o que está aí”.
E agora que estamos às vésperas da Copa do Mundo, vem um certo alguém dizer que está com vergonha porque as obras bilionárias não ficaram prontas.
Está com vergonha de que e de quem?
Parece com aquela classe média que sempre quis se passar por classe alta, sempre quis se passar por alguém refinado, de bom gosto e bons costumes. E fica apavorada quando não tem os talheres adequados para exibir nem tem a toalha de mesa chique para mostrar ao receber a visita de alguém de fato mais rico e refinado. Sem se dar conta, às vezes, que aquele visitante curte mesmo é a amizade, a simplicidade, a harmonia e o calor humano que se pode respirar num lar.
Assim é o nosso país, assim é a nossa cultura.
Nós não somos Alemanha nem Japão. O que caracteriza o Brasil não é a eficiência de se construir com rapidez as obras que este país precisa há décadas e décadas. Alemanha e Japão têm histórias diferentes, têm culturas diferentes. E pagam um preço alto para serem o que são. Não é fácil ser um alemão ou um japonês, ser rígido consigo mesmo, viver numa sociedade onde se repreende uma risada mais alta, um choro na rua, uma conversa num tom mais elevado. É por isso que um número imenso não só de alemães e japoneses, mas também ingleses, suecos, suíços, etc adoram o Brasil e os brasileiros. Eles gostam do Brasil do futebol, do samba, do sorriso, da alegria, do carnaval, da festa de São João, do forró, do frevo. Para eles o Brasil significa descontração, relaxamento, curtição.
Enquanto um ex-jogador de futebol brasileiro diz que sente vergonha das obras da Copa não estarem prontas, um outro jogador espanhol diz que não entende porque há manifestações de protestos no Brasil nas vésperas da Copa. Segundo ele, as pessoas deveriam estar felizes porque o Brasil é o país do futebol e a Copa está sendo realizada aqui. Então é hora de irmos para as ruas cantar e dançar. É hora do samba e do sorriso. E ele que vive na Espanha sabe que lá a taxa de desemprego é altíssima, ao contrário do Brasil.
Eu vivo no Brasil e sei que meu pedreiro não cumpre o prazo prometido, sei que a telefônica só vai resolver o meu problema quando eu for no PROCON, sei que a minha seguradora vai criar uma série de burocracias desnecessárias para atender meu pleito. Então, se os aeroportos ficarem prontos em 2016, eu acho que já estamos no lucro, se a transposição do Rio São Francisco só funcionar completamente em 2017, vai ser ótimo para o nordeste que luta com a seca há séculos, e se algum gringo reclamar comigo, eu lhe direi que nós não somos primeiro mundo, nós somos emergentes, e com orgulho.
Eu concordo com aquele jogador espanhol. E digo mais, eu que também me chamo Ronaldo, vou sentir vergonha se esses milhares de estrangeiros que vierem ao Brasil forem recebidos com quebra-quebra, com ônibus incendiados, com greves nos transportes.
Esse pessoal do primeiro mundo não precisa vir ao Brasil para conhecer aeroporto faraônico, shoppings moderníssimos, sistema perfeito de transporte urbano. Tudo isso eles têm lá em quantidade e qualidade. O que eles não têm lá é a docilidade, a amabilidade, o sorriso fácil do nosso povo. O que encanta um europeu é o drible do Garrincha, o gol do Pelé, as nossas escolas de samba, a capoeira, o molejo do brasileiro, as nossas brincadeiras, as rodas de samba, o nosso jeito moleque.
Essa é a nossa grande oportunidade de mostrar ao mundo que existe uma maneira diferente de se viver, que a felicidade não é resultado da ganância pelo dinheiro, pelo prestígio, pela carreira profissional ascendente; que a criatividade não pode ser esmagada pela exigência de precisão, de rapidez e rigidez de padrões. Não é à-toa que o grande filósofo italiano Domenico de Masi afirma que com seu patrimônio histórico e cultural, o Brasil pode dar contribuições insubstituíveis à formação de um novo modelo global, embora admita que ainda tenhamos problemas como a distância entre ricos e pobres, o analfabetismo e a corrupção. Mas ele destaca fatores positivos como o sincretismo, a postura positiva em relação à vida e a aversão à guerra.

Então, eu realmente vou sentir vergonha se os brasileiros quiserem mostrar aos nossos inúmeros visitantes um Brasil que não tem a cara do Brasil. Vou sentir vergonha se quiserem mostrar violência em vez de um sorriso maroto, se quiserem só mostrar uma eficiência de primeiro mundo e não manifestar o nosso “jeitinho brasileiro” de ser.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

OSHO, O GURU INCORRETO?

Recebi um e-mail fazendo referências a histórias supostamente “nebulosas” ao redor do Osho. E também histórias “nebulosas” envolvendo os sannyasins. E talvez seja também por isso que Osho disse que não existe movimento sannyas. O que existe é uma movimentação de sannyasins ao seu redor, no mundo inteiro. E Osho não responde pelos atos de cada sannyasin.
Cada um de nós responde por nossos próprios atos.

O texto abaixo foi a resposta aos diversos itens apontados no tal e-mail recebido. Eu tenho conhecimento de todas as coisas apontadas no e-mail, e de muitas outras. Mas, quer saber de uma coisa? O que me interessa mesmo, única e exclusivamente, é ter conhecimento cada vez mais de qual é a essência da mensagem do Osho. Essa mensagem tem se revelado para mim, através de minha própria experiência, como absolutamente verdadeira e libertadora. Não é da minha conta se presentearam Osho com quase cem Rolls Royces, se o governo americano para se ver livre dele o acusou de dezenas de infrações às leis daquele país, se durante os festivais o pessoal que podia pagar hotel 5 estrelas se acomodava melhor do que quem morava em tendas. Isso faz muita diferença para quem aqui no nosso meio acompanha a corrupta política nacional, as fofocas das celebridades, as novelas da globo. Aí sabemos quem vai passar o reveillon em Nova York, em que hotel vai se hospedar, quem vai para a ilha de Caras, etc. Com Osho isso nada tem a ver. Eu nunca fiquei em hotel 5 estrelas em Puna. Sempre fiquei dividindo quarto com mais 1 ou 2 pessoas. E isso nunca aumentou nem reduziu a minha sintonia com a energia do mestre, com a sua mensagem.

Eu sempre vi pessoas lindas na comuna do Osho. Mas não era condição para entrar na comuna que fossem gatinhas participantes de concurso Miss Puna, nem de concurso das mais "certinhas". Essa é a visão distorcida de quem vive diante da TV, do programa da Xuxa, do Faustão e do Hulk. Na comuna do Osho as coisas acontecem de maneira diferente. Os parâmetros são outros, o conceito de beleza é outro. Também tem gente com rostinho de boneca, mas não é disso que se trata quando falamos de pessoas lindas.

É claro que Osho era uma pessoa de destaque na mídia e numa sociedade neurótica como a americana, ele corria perigo naquela época em que se jogavam bombas em comunidades religiosas que desafiavam as tradições conservadoras cristãs. E haviam comunidades loucas que pregavam o suicídio. Se as pessoas que cuidavam da segurança do Osho andavam armadas, deve ter sido uma medida de precaução que o momento exigia. E dai? Eu não estava lá, naquele momento e naquela situação, cuidando da segurança dele e por isso não sei quais os desafios que eles tiveram que enfrentar. Osho nunca tomou a iniciativa de dizer o que sua guarda deveria fazer, nunca disse que os hotéis de 5 estrelas deveriam ser assim ou assado. Osho cuidava da mensagem que ele nos compartilhava. Ele tinha urgência de deixar sua mensagem para o novo homem, para um novo mundo. O seu foco era a nossa transformação, era nos estimular, nos desafiar a dar um salto quântico em nossas vidas. É claro que ele sempre disse que gostava do melhor e nos estimulou a também querer o melhor para nós, não nos contentar com as migalhas.

A mensagem do Osho sempre priorizou a expansão da consciência, a meditação, a superação dos nossos limites e bloqueios impostos por uma programação arcaica e castradora, de modo que possamos ser livres, conscientes e inteiros em cada ato, em cada momento de nossa vida. E nisso não há preconceito quanto à alegria, ao conforto, à beleza, ao prazer, ao amor. A nossa totalidade implica numa realização plena em todos os sentidos. Osho nunca pregou a caridade cristã de dar abrigo aos pobres e sem-tetos. Quem cuida disso são as igrejas, é a Madre Tereza de Calcutá. Isso nada tem a ver com o trabalho do Osho. Por isso Osho é totalmente diferente de todos esses iluminados que passaram pelo planeta. Ele é revolucionário nesse sentido. Ele não veio dar consolo ao pobre. Ele veio cutucar as pessoas para assumirem as rédeas de sua vida e superarem suas limitações, para se realizarem e alcançarem os picos da espiritualidade através da meditação. Osho nunca pregou voto de pobreza, nem de castidade. Nunca foi a favor do auto-flagelo para redenção das culpas. Essa coisa de pobreza, humilhação, subserviência, tem origem nessas religiões que nos jogam culpa, pecado original, nos proíbem o prazer e o sexo. Osho nada tem a ver com essa tradição religiosa. Com Osho não há preconceito contra a alegria, o luxo, a riqueza, o conforto, a beleza estética. Se podemos viver bem, porque optar por viver mal? Não há recompensas na outra vida ou num paraíso celestial. O paraíso é aqui mesmo. É aqui que o construímos.

Aqueles que ainda estão tropeçando, sem conseguir resolver suas questões materiais básicas, têm que encarar o desafio de superar esse estágio. Esse é o desafio de cada um deles. Quem está com fome de comida, tem que lutar é para conseguir seu pão; não se pode esperar que ele esteja almejando a sofisticação de um espaço meditativo. Infelizmente isso é real. E Osho cita o próprio Jesus quando este disse para algum de seus discípulos que queria cuidar de um parente doente: Jesus disse: deixe que os mortos cuidem dos mortos. Se você quiser se dedicar a uma obra de caridade e salvar o mundo da fome, faça isso. Isso é com você. Faça aquilo que você acha que é certo. E isso vai ser um grande trabalho, de muito mérito. Você poderá se sentir um benfeitor da humanidade, poderá até receber reconhecimento público. Mas nada disso vai somar no seu processo pessoal, interior de crescimento na meditação. Esse seu processo pessoal, interno é somente seu. É você com você mesmo. Nem mesmo o Osho pode lhe ajudar. É um garimpo que você faz dentro de si, percorrendo os mistérios de seu espaço de silêncio interior. É o seu processo individual de auto-conhecimento. Aqui não estamos lhe dizendo para não olhar para o outro, não olhar para o próximo. Estamos apenas lhe dizendo para olhar para si mesmo. Olhe para quem você quiser, mas não deixe de olhar para si mesmo, vá para dentro e mergulhe nessa aventura do auto-conhecimento. Mas, se você não tem o que comer, o que vestir e onde morar, eu não posso lhe pedir que se aquiete e entre no silêncio do espaço meditativo. A visão do Osho às vezes soa um tanto quanto dura. Mas é assim mesmo.

E ainda lhe digo mais: é preciso ter uma compreensão ampliada para sacar a mensagem do Osho. Osho não é para todo mundo. Por isso Osho é tão mal compreendido. As pessoas olham Osho a partir de seus conceitos e preconceitos cristãos, judaicos, muçulmanos, ou hindus. Osho não é nada disso. Esse Osho que a gente encontra nas citações do Facebook, essas frases bonitinhas do Osho que aparecem nas agendas e nos cartões, não revelam a totalidade da mensagem desafiadora, revolucionária e transformadora do Osho. Muita gente se apega na mensagem do Osho quando ele fala da rosa. Mas a rosa traz consigo o espinho. Geralmente as pessoas gostam de olhar para a rosa e evitam encarar o espinho.

O caminho com Osho é um caminho de auto superação a cada instante, a cada passo que damos na vida. Diante de cada situação da vida, nos confrontamos com nossas sombras, com nossos bloqueios, com nossas limitações, com nossas repressões. Osho não nos pede para segui-lo. Ele nos desafia a seguirmos a nós mesmos. Mas primeiro temos que saber quem somos originalmente, ele não se refere a essa personalidade moldada pela sociedade, pelos pais, pela escola, pelas religiões. Quem somos por trás de tudo isso? E aí sim, ele nos convida a vivermos em sintonia com aquilo que somos originalmente, espontânea e naturalmente. Mas, podemos também optar por fechar os olhos para isso e levarmos uma “vidinha”, curtindo o último capítulo da novela da Globo, postando frases bonitinhas no Facebook, fazendo caras e bocas para impressionar as pessoas, exibindo o carrinho do ano, usando roupinhas de grife, etc etc. Aqui é preciso distinguir. Uma coisa é buscar sua realização plena, corpo/espírito, sem preconceitos quanto ao conforto e ao bem estar material. Outra coisa é achar que o conforto e as benesses da tecnologia significam o máximo na vida.

É muito difícil e árduo encarar o desafio que Osho coloca diante de nós, para assumirmos a nossa própria trajetória de vida. Por isso é muito mais fácil olharmos seus Rolls Royce, o luxo dos hoteis 5 estrelas, a restrição à entrada em sua comuna de soropositivos, esfarrapados e drogados. Assim, podemos vestir a capa de defensores da boa causa e não temos que encarar os desafios que ele coloca diante de nós. Aliás, o próprio Osho disse em algum lugar que se você só tem olhos para ver os seus Rolls Royce, é porque você não está apto a entrar no caminho que ele nos aponta. Então só lhe resta ficar contando os Rolls Royce. Esse é o estágio em que você se encontra. Ele dizia que os Rolls Royces acabaram funcionando como um filtro para o trabalho dele.

Para uma pessoa que fica apontando essas coisas "nebulosas" ao redor do Osho, só podemos dizer: - Tudo bem, fique aí anotando todos esses detalhes no seu caderninho. Passe a vida pesquisando isso, pelo menos você continuará girando ao redor da figura do Osho. Quem sabe, se em algum momento você tropeça numa mensagem dele que lhe dê uma sacudida e você acorda desse sono em que está mergulhado?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Minha experiência com a Meditação da Percepção Corpórea


Há pouco mais de 1 mês, eu venho praticando a Meditação da Percepção Corpórea em grupo como prática interativa on-line através do Skype e individualmente no meu dia-a-dia. Essa prática está me abrindo para novas sensações e percepções no meu dia-a-dia; sinto que ela está contribuindo para eu estar mais presente no aqui e agora.
Existem vários detalhes importantes que precisam ser orientados no caso de alguém querer ser iniciado nesta técnica. Mas, de uma maneira bem resumida e para o propósito desta minha reflexão, eu poderia dizer que nessa técnica, eu me coloco numa postura de meditação, sentado, coluna e cabeça eretas e relaxado, e a cada ciclo respiratório, vou percebendo as partes do corpo onde as sensações são mais intensas.
O que tenho experimentado nessa técnica é que ao perceber essas partes do corpo, naturalmente as minhas tensões e os bloqueios vão sendo liberados e o estado de relaxamento automaticamente tende a se aprofundar. E esse aprofundamento do relaxamento associado à atitude de perceber as sensações, sem acoplar pensamentos dispersivos, tem por conseqüência, também natural, o aprofundamento do meu estado meditativo.
Uma coisa que me agradou muito nessa técnica, é que ela é muito fácil, muito simples. A gente não precisa fazer nenhum esforço. Ao contrário estamos sempre procurando aquilo que é mais fácil, o que é mais gostoso, onde ficamos mais à vontade. E assim, vamos relaxando, relaxando e, ao mesmo tempo, o mergulho interno vai se aprofundando. Sob certo sentido, eu poderia dizer que essa técnica é didática, pois ela nos facilita vivenciar a essência da meditação.
É claro que existem pessoas e pessoas, e ainda bem que nem todas são iguais. Mas, para mim, particularmente, a prática da Meditação da Percepção Corpórea tem sido muito benéfica, na medida em que está aguçando minha perceptividade e meu nível de presença no aqui e agora. Certamente tem contribuído para isso a minha prática regular em períodos curtos diariamente. E sempre que posso, e me lembro, procuro exercitar a percepção corpórea nas atividades comuns, como tomar banho, caminhar, comer, numa fila de espera, dentro do ônibus, etc.
Lembro-me de quando me iniciava nas meditações e terapias inspiradas no Osho, há quase 30 anos, que as pessoas diziam que havia aqueles que para liberar seus bloqueios, tensões e repressões precisavam de uma britadeira, enquanto para outros um bisturi era mais indicado e outros ainda, para quem apenas um toque sutil de uma massagem era o bastante. Considero a Meditação da Percepção Corpórea nesse contexto do toque sutil.
A minha experiência com essa meditação não exclui a minha prática regular de técnicas meditativas do Osho. Ao contrário, eu tenho percebido que minhas práticas de meditação do Osho no espaço Shunyata aqui em Juiz de Fora estão alcançando um aprofundamento ainda maior. Atribuo isso ao fato de estar com minha atenção e perceptividade mais aguçadas. Na noite de hoje, por exemplo, durante a Gourishankar, pude estar mais presente e mais perceptivo a cada ciclo respiratório do primeiro estágio; me senti mais atento à chama da vela no segundo; tive uma bela experiência de latihan, observando e sentindo toda a natural movimentação do corpo. E finalizei com um profundo silêncio e quietude no último estágio, sem muitos pensamentos dispersivos.
Um outro aspecto que me surpreendeu nessa meditação é o fato dela ser feita em grupo utilizando o Skype, que é um recurso tecnológico moderníssimo, ao qual não tiveram acesso os místicos e meditadores do passado. E tem sido incrível como o campo de energia meditativa está sendo criado quando nos reunimos on-line. Vivenciamos as duas experiências: a de meditarmos individualmente e, ao mesmo tempo, a de meditarmos em grupo.
Com este meu depoimento, quero apenas compartilhar essa minha experiência com a Meditação da Percepção Corpórea, que foi desenvolvida pelo nosso amigo Nisargan, com base em seus muitos anos de experiência meditativa.
Ele tem organizado grupos para a prática interativa dessa meditação on-line através do Skype e produziu uma série de 6 aulas em vídeos que divulgou no Youtube sob o título de “Meditação com Nisargan”. Basta procurar por esse título no Youtube e as aulas estão lá. Além disso, Nisargan disponibiliza o e-mail meditandoagora@gmail.com para os interessados em obter mais informações sobre essa meditação e como participar.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

REFLEXÕES A RESPEITO DE UMA FALA DO OSHO



Osho diz:
"Não dou nenhuma disciplina a meus discípulos, não os moldo em nenhum tipo de caráter, padrão e ‘deverias’. Não lhes dou nenhum ideal.
Simplesmente lhe dou algo pequeno que precisa ser alimentado em seu coração: seja mais alerta!
Faça o que quiser, mas faça com mais consciência!
Transforme cada oportunidade em uma estratégia para se tornar mais consciente! E logo mais e mais consciência fluirá em você, o inundará, mais do que você se mobilizou a atingir.
Então, você perceberá as mãos do divino o auxiliando. Uma vez percebidas essas mãos, surge a confiança. Então, você perceberá que não está sozinho; todos os que se iluminaram estão lhe dando suporte.
Este é o maior ato altruísta que alguém pode fazer: tornar-se consciente! Pois, ao tornar-se consciente, você libera consciência à existência, consciência viva novamente liberada...
A quantidade total de consciência se eleva no mundo sempre que alguém fica alerta.
No dia em que a quantidade total de consciência no mundo superar a quantidade total de inconsciência, haverá uma grande mudança universal.
Neste dia, toda a humanidade dará um salto quântico, e este dia está se aproximando. Se as pessoas se empenharem firmemente, o dia está se aproximando..."


A primeira coisa que me salta aos olhos nessa fala do Osho é que ele está falando para mim, ele está falando para você que está lendo este meu escrito. Ele não está falando para alguém distante, ele não está escrevendo uma tese, não está divagando sobre conceitos filosóficos, nem está falando para a multidão.
Ele está falando diretamente para o coração de um público seleto.
E quem se importa com o que Osho fala? Quem é tocado pela sua mensagem? Será que somos uns vinte mil aqui no Brasil? Ou uns quarenta mil, entre discípulos, amigos, leitores assíduos de seus livros, pessoas que passaram por terapias nele inspiradas... Será que somos cem mil?
De qualquer forma, somos um público restrito, num país de quase duzentos milhões de habitantes. E o mesmo ocorre em todo o mundo.
Ele com sua autoridade de iluminado nos diz textualmente que o “maior ato altruísta que alguém pode fazer, é tornar-se consciente”.
E será que ao menos sabemos o que é ser “consciente”?
Será que basta a leitura de textos do Osho para nos tornarmos consciente?
Sabemos ao menos a diferença entre consciência e mente consciente? Conhecemos por nossa própria experiência a diferença entre nosso Centro Observador e nossa mente observadora?
Esse conhecimento é experiencial, ou seja, ele advém da experiência meditativa, dos experimentos científicos que fazemos em nosso próprio interior. Esse conhecimento nos chega através da meditação.
É exercitando nossa pesquisa direcionada ao nosso interior que pouco a pouco nos habilitamos a reconhecer nosso Centro Observador, podemos começar a ter um gostinho do que é estar no aqui-e-agora e saber o que é estar presente. A meditação é a ferramenta.
Mas, palavras como meditação, aqui-e-agora, centro observador, todas elas são palavras bonitas e fáceis de serem repetidas. E é aqui que surge a diferença entre quem apenas repete essas palavras bonitas, quem até se “apaixona” pelas frases poéticas do Osho, quem gosta de fazer parte das tribos ditas místicas e esotéricas, e aqueles que realmente mergulham na meditação.
Por isso um dia Osho disse que o mala, a roupa ocre e um nome iniciático não fazem de alguém um sannyasin.
A grande mudança universal de que Osho nos fala não cairá dos céus, não será um presente dos deuses. Osho nos fala de nossa responsabilidade com nossa mobilização para estarmos conscientes. Sim, nessa mobilização sentiremos as mãos do divino. Mas para isso temos que estar nos mobilizando.
Essa mobilização tem um nome: meditação.
Meditação não é uma causa a ser defendida por uma tribo mística, não é a bandeira de um movimento, não é uma movimentação externa.
Meditação diz respeito ao indivíduo. É um mergulho meu dentro de mim mesmo. Embora possa ser praticada em grupo, ainda assim é um experimento individual.
Para meditarmos precisamos de técnicas, embora Osho nos advirta que a técnica não é meditação, mas ele também nos diz que sem a técnica não chegaremos a lugar algum.
Para meditarmos precisamos de uma iniciação, de um aprendizado. É um processo de experimentações que se sucedem. E é muito bom quando temos oportunidades para troca de experiências, para que uns possam compartilhar com os outros suas descobertas, suas dúvidas.
Meditação é uma prática a ser incorporada ao nosso dia-a-dia. E é um longo processo que se estende por anos, anos e anos.
Ao longo desses anos, meditando com regularidade, nossa meditação vai crescendo e nós crescemos junto com ela. E nem tudo são flores: passamos por experiências de profunda paz e por experiências dolorosas, ora estamos em êxtase, ora estamos angustiados. É um aprendizado onde caímos e nos levantamos várias vezes. Na medida em que nossa consciência cresce, nosso ego vai se desmontando. E isso é doloroso. Leva um tempo até nos desprendermos e nos desidentificarmos das armadilhas da mente, do ego, dos apegos, das projeções, das ilusões, das crenças.
É um processo longo que requer paciência e persistência.
Às vezes nos sentimos fracassados por não chegarmos a lugar algum e jogamos tudo para o ar. Passamos um tempo sem querer falar em meditação. Mas se existe um real chamamento dentro de nós, se existe esse questionamento interno de ‘quem sou eu?’, se existe essa busca, então não há como escapar: após um tempo retornamos a esse caminho sem caminho, sem trilhas, que é a meditação.
Este é, de fato, um processo científico voltado para dentro de nós mesmos. É nesse processo que se dá a aprendizagem da meditação e é só nesse processo que podemos vir a alcançar a compreensão vivencial do que é consciência, do que é estar presente no aqui-e-agora. É nesse processo que posso chegar a saber ‘quem sou eu’, além da mente, além do ego.
O caminho é longo, mas, depois de um certo tempo, começamos a perceber que já não somos o mesmo de antes; depois de um tempo nos percebemos cada vez mais quietos, mais silenciosos, mais serenos.
Sem meditação, todas essas lindas palavras serão apenas lindas palavras sem qualquer significado. Com a meditação, elas se transformam numa linda aventura, nós nos transformamos e elas trazem significado à nossa vida.