quarta-feira, 4 de junho de 2014

TAMBÉM ME CHAMO RONALDO E TAMBÉM SINTO VERGONHA

Eu entendo e respeito o direito das pessoas terem preferências políticas diferentes das minhas. Eu também tenho as minhas. Isso faz parte do jogo político dentro de uma democracia. É direito da maioria escolher o governante e promover a alternância de partido no poder quando sentir que seus anseios não estão sendo atendidos.
A democracia é uma conquista recente do Brasil e o Brasil somos todos nós. Somos nós que fomos às ruas lutar pelas “Diretas Já”, foi o povo que lutou contra uma ditadura que por vinte anos pisou nos nossos direitos de termos nossas preferências políticas e, entre outras coisas, tirou do povo o direito de alternância de poder.
Eu entendo e respeito essa moçada que hoje faz passeatas contra “tudo o que está aí”. Quem tem 30 anos hoje, não conheceu os “anos de chumbo”, não conheceu inflação de 82% ao mês (sim, ao mês, não é ao ano), não sabe o que é dificuldade para se ter um trabalho remunerado com carteira assinada.
E digo mais, quem tem 30 anos hoje, ainda era criança quando o nosso país estava endividado junto ao FMI e recebia frequentemente as humilhantes visitas de seus enviados que vinham nos ditar normas e cobrar providências. Quem tem 30 anos hoje não sabe que tivemos um tempo em que não havia esse poder e essa independência dos Procuradores e da Polícia Federal que vivem farejando toda e qualquer suspeita de corrupção e outros delitos. Há 30 anos nós tínhamos o que se chamava “Engavetador Geral da República”, porque nenhuma denúncia de corrupção neste país era investigada nem era divulgada pela mídia.
Quem tem mais de 30 anos, quem tem 40, 50 ou mais anos, sabe perfeitamente que neste nosso país sempre existiu corrupção e que a impunidade das autoridades era tida como “normal”. Infelizmente, nós ainda convivemos com esse tipo de político que manipula os votos de seus eleitores e se acha com direitos além das leis para se locupletar às custas de seu cargo, sem se dar conta que sua obrigação é servir ao povo e a ele prestar contas.
Mas se olharmos para nossa história temos que reconhecer que muitas conquistas foram alcançadas nos últimos anos, tanto do ponto de vista político, quanto social e econômico.
Entendo e respeito essa moçada de menos de 30 anos, porque ela não teve a experiência vivencial do que era esse país há tempos atrás. Ela conta apenas com as informações do Google, ela conta apenas com o “ouvi dizer” no Facebook. O Google e o Facebook colocam Brasil, Haiti e Japão num mesmo saco. E a nossa mídia completa comparando a rapidez com que o Japão foi reconstruído após o tsuname e como o Haiti ficou paralisado após o terremoto, ou como o Brasil demorou a fazer algo após as enchentes.
Existem muitos aspectos a serem considerados por trás dessas diferenças. Existe uma história diferente e existem diferenças culturais, estruturais que infelizmente são, muitas vezes, obstáculos à solução de problemas vividos pelo povo os quais requerem tratamento urgente e emergente. E junto com isso existe um grande agravante: os maus políticos que se espalham em todas as esferas: federal, estadual e municipal e que insistem na demagogia, no desvio de verbas, na manipulação dos votos.
Mas, quando essa moçada vai às ruas “contra tudo o que está aí”, ela se torna alvo preferencial dos “velhos” interesses que estiveram no poder quando ela era criança ou quando nem tinha nascido. É a velha direita que agora se assume como nova direita e que tem saudades da ditadura militar ou mesmo daqueles governos dominados pelas oligarquias regionais. Aqueles “bons tempos” em que viajar de avião era privilégio de uma elite, quando não se via nos aeroportos esses “Zé-povinhos” de bermutas e sandálias de dedo, aqueles “bons tempos” em que pobre e preto se “colocavam em seus devidos lugares”, e viviam sem reclamar de seus sub-empregos, de andar a pé, de não saber ler e escrever, e se contentavam com o futebol no fim de semana, com o carnaval, e com a proteção de um bom santo.
Essa raposa que agora se chama nova direita, essa eu não entendo nem respeito.
A democracia que estamos construindo é resultado da luta de nossos pais, nossos avós. As nossas instituições ainda estão cheias de falhas, nossa educação, nossa saúde e nossa segurança ainda deixam a desejar. E muito. Mas já contabilizam hoje um ganho significativo se compararmos com 30, 50, 100 anos atrás.
Eu sinto orgulho de estar vivendo este momento de crescimento e amadurecimento do nosso país nos mais diversos aspectos. Eu sou parte disso.
Eu não entendo e não respeito esse pessoal que quebra agências bancárias e de automóveis e não tem uma pauta de reivindicações, não tem uma liderança para discutir e exigir esse ou aquele projeto para solucionar os problemas denunciados. Eu não entendo e não respeito esse pessoal que incendeia ônibus e quebra orelhões e postes distorcendo o sentido dos movimentos de rua que queriam apenas dizer que estava “contra tudo o que está aí”.
E agora que estamos às vésperas da Copa do Mundo, vem um certo alguém dizer que está com vergonha porque as obras bilionárias não ficaram prontas.
Está com vergonha de que e de quem?
Parece com aquela classe média que sempre quis se passar por classe alta, sempre quis se passar por alguém refinado, de bom gosto e bons costumes. E fica apavorada quando não tem os talheres adequados para exibir nem tem a toalha de mesa chique para mostrar ao receber a visita de alguém de fato mais rico e refinado. Sem se dar conta, às vezes, que aquele visitante curte mesmo é a amizade, a simplicidade, a harmonia e o calor humano que se pode respirar num lar.
Assim é o nosso país, assim é a nossa cultura.
Nós não somos Alemanha nem Japão. O que caracteriza o Brasil não é a eficiência de se construir com rapidez as obras que este país precisa há décadas e décadas. Alemanha e Japão têm histórias diferentes, têm culturas diferentes. E pagam um preço alto para serem o que são. Não é fácil ser um alemão ou um japonês, ser rígido consigo mesmo, viver numa sociedade onde se repreende uma risada mais alta, um choro na rua, uma conversa num tom mais elevado. É por isso que um número imenso não só de alemães e japoneses, mas também ingleses, suecos, suíços, etc adoram o Brasil e os brasileiros. Eles gostam do Brasil do futebol, do samba, do sorriso, da alegria, do carnaval, da festa de São João, do forró, do frevo. Para eles o Brasil significa descontração, relaxamento, curtição.
Enquanto um ex-jogador de futebol brasileiro diz que sente vergonha das obras da Copa não estarem prontas, um outro jogador espanhol diz que não entende porque há manifestações de protestos no Brasil nas vésperas da Copa. Segundo ele, as pessoas deveriam estar felizes porque o Brasil é o país do futebol e a Copa está sendo realizada aqui. Então é hora de irmos para as ruas cantar e dançar. É hora do samba e do sorriso. E ele que vive na Espanha sabe que lá a taxa de desemprego é altíssima, ao contrário do Brasil.
Eu vivo no Brasil e sei que meu pedreiro não cumpre o prazo prometido, sei que a telefônica só vai resolver o meu problema quando eu for no PROCON, sei que a minha seguradora vai criar uma série de burocracias desnecessárias para atender meu pleito. Então, se os aeroportos ficarem prontos em 2016, eu acho que já estamos no lucro, se a transposição do Rio São Francisco só funcionar completamente em 2017, vai ser ótimo para o nordeste que luta com a seca há séculos, e se algum gringo reclamar comigo, eu lhe direi que nós não somos primeiro mundo, nós somos emergentes, e com orgulho.
Eu concordo com aquele jogador espanhol. E digo mais, eu que também me chamo Ronaldo, vou sentir vergonha se esses milhares de estrangeiros que vierem ao Brasil forem recebidos com quebra-quebra, com ônibus incendiados, com greves nos transportes.
Esse pessoal do primeiro mundo não precisa vir ao Brasil para conhecer aeroporto faraônico, shoppings moderníssimos, sistema perfeito de transporte urbano. Tudo isso eles têm lá em quantidade e qualidade. O que eles não têm lá é a docilidade, a amabilidade, o sorriso fácil do nosso povo. O que encanta um europeu é o drible do Garrincha, o gol do Pelé, as nossas escolas de samba, a capoeira, o molejo do brasileiro, as nossas brincadeiras, as rodas de samba, o nosso jeito moleque.
Essa é a nossa grande oportunidade de mostrar ao mundo que existe uma maneira diferente de se viver, que a felicidade não é resultado da ganância pelo dinheiro, pelo prestígio, pela carreira profissional ascendente; que a criatividade não pode ser esmagada pela exigência de precisão, de rapidez e rigidez de padrões. Não é à-toa que o grande filósofo italiano Domenico de Masi afirma que com seu patrimônio histórico e cultural, o Brasil pode dar contribuições insubstituíveis à formação de um novo modelo global, embora admita que ainda tenhamos problemas como a distância entre ricos e pobres, o analfabetismo e a corrupção. Mas ele destaca fatores positivos como o sincretismo, a postura positiva em relação à vida e a aversão à guerra.

Então, eu realmente vou sentir vergonha se os brasileiros quiserem mostrar aos nossos inúmeros visitantes um Brasil que não tem a cara do Brasil. Vou sentir vergonha se quiserem mostrar violência em vez de um sorriso maroto, se quiserem só mostrar uma eficiência de primeiro mundo e não manifestar o nosso “jeitinho brasileiro” de ser.

7 comentários:

Unknown disse...

Parabéns pelo texto amigo.
Você conseguiu expor o que penso de todas essas declarações contra a copa. Espero que o Brasil e o povo brasileiro, batalhador e alegre, recebam com respeito os visitantes que estão chegando.
Um abraço
Arnaz

Unknown disse...

Parabéns pelo texto amigo.
Você conseguiu expor o que penso de todas essas declarações contra a copa. Espero que o Brasil e o povo brasileiro, batalhador e alegre, recebam com respeito os visitantes que estão chegando.
Um abraço
Arnaz

Semiao Margelino disse...

É ISSO AI, AMIGO CHAMPAK. PARABÉNS DUPLAMENTE, PELO TEXTO E SEU ANIVERSÁRIO. REALMENTE FOI OPORTUNO E MUITO IMPORTANTE EXPOR ESSA SITUAÇÃO, POIS PARECE QUE ALGUÉM TENTA VIRAR TUDO ÁS AVESSAS NESSE PAÍS, TENTANDO TIRAR PROVEITO PARA VELHAS TEIMOSIAS POLÍTICAS E NÃO SÓ. VOCÊ É O CARA, COMO DIZEM AI, POIS, É ISSO MESMO. EU SOU PORTUGUÊS E VOU TORCER PELO RONALDO DE CÁ, MAS TAMBÉM DIGO:
FORÇA BRASIL. KKK. UM GRANDE ABRAÇO. MARGELINO

Semiao Margelino disse...

É ISSO AI, AMIGO CHAMPAK. PARABÉNS DUPLAMENTE, PELO TEXTO E SEU ANIVERSÁRIO. REALMENTE FOI OPORTUNO E MUITO IMPORTANTE EXPOR ESSA SITUAÇÃO, POIS PARECE QUE ALGUÉM TENTA VIRAR TUDO ÁS AVESSAS NESSE PAÍS, TENTANDO TIRAR PROVEITO PARA VELHAS TEIMOSIAS POLÍTICAS E NÃO SÓ. VOCÊ É O CARA, COMO DIZEM AI, POIS, É ISSO MESMO. EU SOU PORTUGUÊS E VOU TORCER PELO RONALDO DE CÁ, MAS TAMBÉM DIGO:
FORÇA BRASIL. KKK. UM GRANDE ABRAÇO. MARGELINO

Anônimo disse...

parabens pelo aniversario, e tai comungamos do mesmo pensamento, parece q o BRASIL, brasileiro o mulato inzoneiro ja nao existe mais, abraçao.fernando

Anônimo disse...

Arrasou!! parabéns pela lucidez! Éisso aí, sua analise é lúcida. Adorei.
Abraços
Maria José camarão

Antonio Augusto de Oliveira disse...

Parabéns pela luçidez!!!que aforça do teu real ser te ilumine cada vez mais!!!!Premesh