quarta-feira, 9 de junho de 2010

Vida


É muito interessante observar como cada palavra provoca dentro de nós uma relação imediata com o significado que dela aprendemos. Por exemplo, aqui no nosso mundo judaico-cristão, é dado à palavra Deus o significado de uma entidade toda-poderosa que criou tudo que existe em todo o universo. E essa entidade pode intervir na vida de cada uma de suas criações, em particular nos seres humanos, a qualquer momento, com a autoridade de juiz supremo, extremamente exigente quanto ao cumprimento de preceitos, que embora criados pelo homem, são anunciados como de inspiração divina. O não cumprimento desses preceitos implica em punições e castigos, enquanto a sua fiel observância é agraciada com o paraíso celestial após a morte.

Essas idéias nos foram introjetadas desde nossa mais tenra idade e logo se tornaram uma verdade inquestionável. Esse conceito de Deus é a base de todo um sistema de crenças e rituais que constitui uma religião organizada. Movidos pelo medo e pela insegurança diante dos mistérios da vida, nos agarramos a essas religiões e seus ensinamentos. E isso é um fenômeno que persiste desde os primórdios da civilização até os dias atuais. Quando pronunciamos a palavra Deus, uma luz vermelha (ou verde) se acende em nosso mundo de idéias. Falar algo contra Deus e seus preceitos significa um desrespeito imperdoável e implica pecado, condenação e castigo. É muito difícil uma pessoa escapar do poder psicológico e espiritual dessas religiões e seus deuses.

Quando, por uma abertura de consciência, ou por uma profunda reflexão filosófica ou científica, se desmonta diante de nós todo esse sistema de crenças religiosas, abre-se a cortina de um novo espetáculo: um mundo sem a figura daquele Deus com sua longa barba sentado num trono acima das nuvens a governar a vida de cada um de nós. Para muitos não é fácil encarar um mundo sem um Deus que explica a origem de tudo, que define o que é certo e errado, a quem se pode recorrer nas horas de aflição e que garante uma compensação pelo cumprimento dos preceitos. Assim, quando perdem a crença e a fé num Deus, muitos começam a se sentir perdidos e deslocados num mundo sem sentido.

Foi nesse estado que conheci Osho e o que mais me tocou nas primeiras leituras de seus livros foi a maneira como ele abordava a vida como um mistério para ser aceito e vivido e não para ser compreendido através da mente. E essa vida que pulsa dentro de mim e fora de mim desde toda a eternidade e por todo o universo infinito não precisa receber uma denominação, mas pode ser chamada de existência, de Deus ou simplesmente vida. E Osho falava de uma maneira tão linda e poética a respeito da natureza, das flores, da alegria, que eu pude novamente admitir em meu vocabulário a palavra Deus com reverência e amor.

Mas, eu ainda não consegui me livrar completamente do ranço que pesa sobre a palavra Deus em meu subconsciente. Por isso, tem sido mais fácil para mim a palavra vida que não me traz nenhuma carga pesada, nenhuma idéia de entidade sobrenatural. Ao contrário, ela é fluida e me traz uma sensação de vibração, de pulsação constante, de alegria, de flor desabrochando, criança sorrindo, namorados se amando, pássaros voando, estrelas brilhando, sol nascendo, noite de luar, sensação de correr, de amar, de ser feliz. Eu sinto a vida pulsando dentro de mim, eu sinto e vejo a vida nas ruas, nas matas, nos rios, no céu infinito.

Após conhecer Osho, pude fazer uma releitura de muitos dos ensinamentos que recebi a respeito de Deus e de Jesus, a respeito da criação do mundo e de outros preceitos religiosos. Passei a ver as mesmas coisas, mas sob a ótica da vida e não daquela figura de Deus que me ensinaram. Passei a ver a onipresença da vida, a criação não como algo completo, mas como um processo permanente de criar, o certo e a virtude como sendo o mais fácil e o mais natural, e o paraíso como algo a ser construído e vivido aqui e agora. Descobri que o sentido da vida está no ato viver, em saber como viver e que o nosso grande desafio está na aceitação da vida tal como ela é, na percepção de que a vida é maternal e cuidadosa para conosco e que quando as coisas não vão bem, geralmente é porque nós mesmos criamos expectativas quanto ao desenrolar do mistério da vida. E foi desde que descobri isso, que venho constatando que a vida invariavelmente tem conspirado a meu favor.

4 comentários:

Joel Munhoz disse...

É isso aí Champak, assino em baixo. Sofri muito também com essa idéia de Deus na infância e adolescência. Fui estudante rosacruz durante vários anos, me ajudou bastante. Mas foi somente após conhecer o Osho que esse conceito de Deus (que é o próprio Diabo em pessoa rsrsrs) caiu por terra. As palavras de Osho realmente tocam o coração e nos deixam leves na existência. Valeu irmão, grande abraço!

clarinda disse...

Um grande abraço!!!

MA DEVA KHYANA disse...

Quando a vida torna-se um experenciar atento os conceitos são como imagens cenematográficas...Sou ma Deva Khyana. gostaria muito de passar um tempo ao seu lado.Nissargan e Gyata do didgeridoo é meu amigo de sfx.

Fabio Rocha disse...

Sinto o mesmo peso na palavra Deus muitas vezes. Além de vida, acho leve também usar a palavra Sagrado... Até mesmo Divino não traz essa carga toda. Abraços