sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ser ou não-ser


Talvez uma das coisas mais importantes que aprendi com Osho foi a compreensão de que nossa mente é ardilosa e que nunca quer perder o controle.
Para isso ela sempre dá um jeitinho. Ora a vemos apresentando justificativas, ora levantando bandeiras, ou abraçando “causas nobres”, manifestando suas opiniões, ou não abrindo mão de certos princípios e convicções.
E nós ficamos “em cima do muro” lendo os textos esclarecedores do Osho e dizendo para nós mesmos: “Ah! É isso mesmo! Como essa mente é esperta!”

Tendemos a nos separar da mente ou do ego. E nos esquecemos de que, no estágio em que estamos, de não-iluminados, não sabemos ao certo quem somos. Assim, melhor do que dizer que nossa mente é ardilosa ou que o “meu ego” é isso ou aquilo, eu deveria dizer que eu sou ardiloso, que eu fico me justificando diante de cada ato e situação, que vivo levantando bandeiras, que estou sempre abraçando “causas nobres” e frequentemente manifesto minhas opiniões, não abrindo mão de certos princípios e convicções.

Mas faz parte da “minha” esperteza, fazer essa distinção e atribuir todas essas atitudes à minha mente, ao meu ego, como se eu já estivesse descolado dessa mente e desse ego.
A verdade é que chegamos a um ponto em que começamos a andar numa corda bamba. Há momentos em que respondemos à vida a partir de nossa consciência pura, e há momentos em que nos perdemos e sutilmente reagimos a partir de nossa mente consciente.

Ao reagir a partir da mente consciente, eu me iludo de que estou descolado dessa mente e do ego, e me assumo como sendo alguém especial, poso de místico e esotérico, faço belos discursos, me coloco à frente de movimentos e entidades. Internamente e paralelamente, permaneço com minha mente catalogando as habilidades espirituais e as percepções sutis que consegui desenvolver ao longo do “meu caminho”, me iludindo de que é o meu “observador interno” que está catalogando, sem querer admitir uma oculta pitada de satisfação ao achar que já alcancei algum patamar mais elevado.

E quando todo esse jogo começa a se revelar, não há mais como mantê-lo de pé. É como Osho diz: ao se acender a luz, a escuridão se vai. Não há como mantê-la quando a luz se faz presente. Num piscar de olhos, todo o castelo se desmorona.
Mas, ainda assim, existe um “pulo do gato” ao qual recorrer. Posso renunciar a tudo, fazer declarações e me recolher ao silêncio e ao anonimato. Assim, esse alguém especial (que sou eu) pode caminhar a esmo pela multidão, pode ser um ninguém. Mas internamente aquela voz ainda continua soprando ao ouvido: “Muito bem! Veja como você é um ninguém no meio da multidão – um ninguém muito especial, cheio de percepções e sensibilidades...”

Ser simples e comum é uma tarefa árdua. Principalmente porque não é um “tornar-se”. É simplesmente começar a observar em mim tudo aquilo que cheira a “especial”. É me despojar de uma série de atributos e valores que fui agregando a mim mesmo. É a árdua tarefa de me desnudar e voltar a ser aquilo que sempre fui, mas não me dou conta mais do que é.

Não se trata de negar todas as conquistas obtidas, todas as compreensões alcançadas, todos os atributos e valores agregados. Ao contrário, é preciso reconhecer o ganho significativo de cada passo que foi dado. Foi através desses passos que cheguei até aqui. Mas agora é hora de reconhecer também este novo passo, este momento novo em que já podemos parar, sentar e abrir esse imenso saco que temos carregado nas costas, no qual fomos acumulando cada experiência, cada sacação, alegrias e dores, amores e desamores.

É chegado o momento em que podemos nos sentar e contemplar toda essa riqueza guardada. Cada experiência, cada sacação, cada emoção, é como se fosse uma pedra preciosa guardada nesse saco imenso que carregamos ao longo da vida. Cada uma marcou um momento especial de maior abertura, de salto qualitativo, de expansão da compreensão e do amor.

E agora, contemplando cada uma dessas pedras preciosas, podemos perceber o quanto ficamos apegados a cada uma delas. Este é o momento de dizer muito obrigado a cada uma dessas pedras e, pouco a pouco, começar a esvaziar o saco. É hora de reaprender a caminhar com nossos próprios pés, de balbuciar as primeiras palavras com nossa própria voz, de descobrir de fato o aroma, o paladar, os sons e as cores da vida. É hora de começar realmente e humildemente a viver a vida como um mistério. Como sempre Osho nos tem dito. Com mais leveza, com mais dança, com mais poesia e com mais silêncio.

3 comentários:

M. disse...

Champak, obrigada!
Abraços,
Mel

clarinda disse...

Champak, que bom que você escreveu de novo, amo seus textos, obrigada.

Geninho disse...

Olá Champak
Sou novo aqui no seu blog. Recebi um e mail dizendo que era o último seu NEWS do Osho e algo me marcou quando dizia DEIXA DE SER O MENSAGEIRO PARA SER A MENSAGEM.
Eu não o conheço, mas pela sua foto me parece não ser tão jovem assim.
Seu texto me parece de alguém que estava cansado de carregar algumas pedras e está se livrando de uma a uma para viver com mais leveza, mais música, mais paz e silêncio.
Acredito que todos estamos nesta busca, eu inclusive e tenha certeza que suas palavras de certa maneira aliviam a minha alma e me ajudam caminhar mais leve.
Estarei mais vezes por aqui.

Geninho Goes
www.blog.geninhogoes.com.br